Com alguma frequência, ouvimos especialistas falarem que um dos pilares da violência estrutural que vivemos em nosso país nasce na educação deficiente. Além, claro, da exclusão clássica e indissolúvel que nos acompanha, enquanto sociedade, desde que os portugueses resolveram tomar esta terra de seus, até então, donos legítimos. Porém, há que deixar bem claro, sempre, o que deve ser entendido como educação. Ou Educação, com “E” maiúsculo. E vamos ir além dos conceitos didáticos que os cientistas da área certamente saberão definir com muito mais propriedade. Mas vamos ao popular que nos interessa. Vamos direto ao ponto. E é quando lembro de uma frase de minha avó, uma colona bugra criada lá no Vapor Velho, no interior do interior de Montenegro, que partiu aos 96 anos mas, no alto de sua sabedoria sem nenhuma escolaridade, me disse certa vez: “deproma não encurta oreia”. Verdade, vó. Diplomas, por si só, não tornam as pessoas mais inteligentes. Muito menos mais “educadas”.
Esta semana foi permeada de polêmicas envolvendo diplomados. Eu nem consigo me colocar no lugar da menina que foi estuprada no auge da sua infância, antes mesmo do mundo começar a se descortinar com suas matizes caóticas e desfazer os reinos de fantasia que toda a criança tem em sua alma. Sua vida foi violada, interrompida, estraçalhada para sempre por um tarado, um maníaco, um demente que não merece o mínimo de consideração. Mas esse tipo de violência, infelizmente, faz parte do nosso cotidiano bizarro e nem nos impressiona mais. O que impressiona é quando essa vítima da doença mental alheia é salva, é levada ao encontro de quem pode tentar amenizar sua dor, e estas pessoas o que fazem? Proporcionam novos capítulos de violência. Médicos, juíza, promotora. Suas concepções, além de não encontrarem amparo legal, simplesmente ignoraram o fato de ela ainda ser uma criança, uma vítima, de não conseguir compreender o alcance da tragédia que viveu, ao negarem um direito. A menina teve a gravidez interrompida legalmente na quarta-feira após recomendação do Ministério Público Federal (MPF).
E então um procurador de um município, homem diplomado e, a princípio, culto, espanca uma colega de trabalho, sua chefe, de forma brutal e covarde. Ainda bem que tudo foi filmado e não há testemunho capaz de negar o que aconteceu. A função de procurador é um cargo de extrema relevância que exige preparo e conhecimento. Neste caso, como no citado acima, e como em tantos outros que se sucedem neste país todos os dias, a escolaridade não educou. Mas é função da escola educar? Simplesmente dar acesso à escola garante educação? Não. Há muito mais. Há princípios de respeito ao ser humano, de solidariedade, de amor e tolerância que urgem. Mas nem dá para jogar no colo da escola essa responsabilidade. A responsabilidade da escola é repassar conhecimento. Educação é muito mais que isso e começa em casa. Começa no entorno. Começa, inclusive, nos exemplos e caminhos que os condutores de uma sociedade devem se preocupar em oferecer ao seu povo.
