Oscar Bessi

Elas viram o pai ser assassinado

downloadUma menininha de apenas 4 anos, em Porto Alegre. Talvez feliz por essas minúcias mágicas que compõem a infância: comprar um chocolate, um pirulito, algum docinho decorado da Peppa Pig. Aos quatro anos o mundo dessas almas não combina com dor e violência.

Mas na Zona Sul de Porto Alegre, a menina de 4 anos viu seu pai ser assassinado. Com vários tiros. No estacionamento do super, viu a maior brutalidade possível acontecer com o homem que, para ela, simbolizava o amor, o carinho de proteção, o colo macio para adormecer.

E ele foi morto por bandidos cruéis, traficantes de drogas, gente que é violenta por prazer. Ah. E foi "por engano". Alguém morre desse jeito brutal por engano? Não, esses bandidos queriam matar, queriam ser cruéis, nem aí para a criança que estava no carro. Nem aí se era a vítima "certa".

(Existe vítima certa?)

Quem está, hoje, se colocando no lugar dessa menina?

Quem consegue passar com sua alma impune pelas lágrimas de uma criança?

O que será do amanhã desta menina? Como lhe fazer ter, de volta, a inocência, agora roubada pelo caos, onde os piores pesadelos eram apenas com bruxinhas simpáticas ou insetos de muitas pernas e zumbidos? Ela conheceu prematuramente demais o que é a dor da morte.

E as duas meninas de Terra de Areia? Elas tinham 5 e 9 anos e também viram o pai ser assassinado por ladrões de carro.

A mesma dor. Os mesmos sonhos interrompidos. A mesma falta que jamais será recuperada. O mesmo drama e a mesma pergunta: quem é capaz de se colocar, hoje, no lugar delas? Quem consegue imaginar o que elas passaram? O que elas sentiram? O que elas sentem hoje?

Eu só gostaria que todos os idiotas que sustentam, com seu vício e seu egoísmo, esse mercado de drogas e se acham "os tais", pensassem por um minuto nessa menininha de 4 anos, em Porto Alegre. E entendessem a porcaria que fazem.

Eu só gostaria que os caras que se acham os bambambans e têm carro por puro exibicionismo, mas sem conseguir sustentá-lo, ou somente comprando nas vias alternativas e baratas do submundo por se acharem espertos, aí alimentando essa rede de roubos de carros e desmanches, eu só queria que eles pensassem um pouco nessas duas meninas do litoral. Que tentassem sentir a sua dor.

Não. Nenhum deles vai parar pra pensar. Nunca pensam. Como nenhum dos inúteis e omissos e oportunistas, que podem muito bem parar essa fábrica de bandidos cruéis, estancar essa geração brutalizada, artificial e insensível, vai parar para pensar nessas meninas.

Esses, só pensam em si.

Tragédias semelhantes se repetem todos os dias, em diversos cantos do Brasil, há um bom tempo. Os olhares se desviam, se esquecem. E tudo só fica cada vez pior.