É só espiar a História. E descobrir que os termos “direita” e “esquerda” surgem na Assembleia dos Estados Gerais na França, uma tentativa de criar a primeira constituição do país nos anos conturbados de sua revolução, ao final do século XVIII. Expressões que só mostravam, na geografia do plenário, uma relação entre os grupos, suas defesas e posição nos assentos. Partidos como os Girondinos, conservadores que não queriam grandes alterações nos privilégios da alta burguesia, sentavam-se à direita. À esquerda, Jacobinos, Cordeliers e outros que falavam em igualdades às classes mais baixas, não exatamente com integrantes delas entre si.
Na prática, apenas discursos. A insatisfação popular e as mortes seguiram por bons anos. Mas o período inspirou muito do que viria na história das disputas políticas da humanidade.
Brasil, hoje. Os termos “esquerda” e direita” são usados até por quem não tem a mínima noção desta origem ou significado. Temos, à direita, as cadeiras das castas privilegiadas, ou focadas no lucro, obviamente nem aí para as dores do povão, e à esquerda este povão e seus anseios por uma sociedade mais justa e igualitária?
Não, né.
Olhem bem, todos os partidos têm o mesmo discurso, todo político repete uns decorados chavões. Rótulos até dão nó na cabeça do pobre povo: o “direita” seria quase nazista, violento e intolerante, o “esquerda” um chato defensor de bandidos e etc. Na prática, todos eles, de lá e de cá, num mesmo barco. Ou iate. E eles se coligam sem o mínimo pudor, numa suruba ideológica debochada e assustadora, apenas para vencer uma eleição. Nada se pensa, tudo se maquina.
No Congresso Brasileiro, ninguém senta à esquerda ou direita por convicções. É um no colo do outro. E ninguém do nosso lado.
A verdade é as práticas escandalosas são iguais. E os interesses são de grupos e umbigos. Nós, cá do pisoteado povão, alvo de todos os impostos e indiferenças, não estamos em canto algum desse tribunal. Mas nem num mochinho ou em pé na assistência.
Talvez nas cidades ainda se salve um ou outro político de elogiável nobreza moral. Sim, eles existem, não dá para generalizar, nas tribos ainda é possível manter esta retidão, embora frequentemente assediada pela gula dos vampiros acima deles.
Mas aquelas criaturas lá não nos representam. Podem sentar onde quiserem e repetir suas ladainhas que ninguém mais ouve. Talvez, aí, comece a explicação desse tempo violento, que mata milhares, pior do que o Período do Terror francês. É o absurdo. Ou o desespero indignado. Só falta desaguar num novo Napoleão da vida.
Ou Hitler.
