Oscar Bessi

Estamos mais violentos ou apenas mais atentos?

Notícias repetidas de feminicídios, os casos parecem se multiplicar. Há algum novo vírus no ar que transforma homens em psicopatas covardes ou sempre foram assim e nós não havíamos percebido? E após o caso de Florianópolis, o número de agressões a animais aumentou, ou apenas se passou a dar mais importância e espaço para este tipo de crime? É raro o dia em que não nos deparamos com uma nova e assustadora, quase inacreditável. Afinal, o que está acontecendo? Talvez a resposta esteja em reconhecer que a violência tem raízes históricas, sociais e culturais profundas, mas também em acreditar que bons exemplos podem contagiar com tanta força quanto o mal. Precisamos insistir nisso, torcer por isso e, especialmente, agir.

Este 2026 mal chegou e trouxe com ele a dolorosa confirmação de que a brutalidade, que corta vidas e fere inocentes, segue intensa em nossa paisagem cotidiana. O Brasil terminou o ano anterior com recorde de feminicídios, numa média de quatro mulheres assassinadas por dia. O que evidencia não apenas a persistência, mas a crueza de uma violência anunciada e repetida. Números e casos repetidos, chocantes, que desafiam qualquer explicação simplista. Por que, mesmo diante de leis e mobilizações, mulheres continuam a pagar com suas vidas pela condição de gênero? O que se espera, agora, do Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio lançado esta semana, justo no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos sem ter conseguido resultados positivos, é muito mais do que uma urgente transformação estatística. É mudança de comportamento. De educação.

Essa propensão à violência não para nas fronteiras do gênero humano. Logo no início de janeiro, o caso que ficou conhecido como “Orelha” — o brutal espancamento de um cão comunitário na Praia Brava, em Florianópolis, que levou o animal à morte — mobilizou protestos mundo afora e gerou indignação nas redes sociais. São episódios como esse que nos confrontam com outra face da agressão: a que recai sobre seres que não têm voz, e cuja dor deveria ser óbvia a qualquer consciência civilizada. Dados recentes indicam que no Brasil foram em média 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia em 2025, uma realidade que exige políticas públicas mais firmes e educação social voltada ao respeito pela vida.

Aí nos perguntamos como, após as notícias repetidas de feminicídios, os casos parecem se multiplicar. As tentativas e as mortes. Há algum novo vírus no ar que transforma homens em psicopatas covardes ou os homens sempre foram assim e nós que não havíamos percebido? E também nos questionamos: após o caso de Florianópolis, o número de agressões a animais aumentou, ou apenas se passou a dar mais importância e espaço para este tipo de crime? Porque é raro o dia em que não nos deparamos com uma nova e assustadora, quase inacreditável, nova notícia de agressão similar. Afinal, o que está acontecendo?

Diante desses números e desses gritos sufocados por trás de manchetes e telas de celular, surge uma pergunta que calha de ser feita: será que essa onda de violência é alguma espécie de resposta bizarra — quase uma perversão de retorno — às discussões que buscamos abrir? Ou será que a humanidade sempre foi assim, e só agora nos damos conta, ao parar para jogar luz sobre essas trevas, do quanto elas são profundas e dolorosas? Talvez a resposta esteja em reconhecer que, sim, a violência tem raízes históricas, sociais e culturais profundas, mas também em acreditar que os bons exemplos podem contagiar com tanta força quanto o mal faz ruído. Precisamos insistir nisso, torcer por isso e, especialmente, agir. Porque só a insistência em reconhecer a dignidade de cada vida, humana ou animal, nos permitirá cultivar um futuro menos violento e mais digno para todos.

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