Este 2026 mal chegou e trouxe com ele a dolorosa confirmação de que a brutalidade, que corta vidas e fere inocentes, segue intensa em nossa paisagem cotidiana. O Brasil terminou o ano anterior com recorde de feminicídios, numa média de quatro mulheres assassinadas por dia. O que evidencia não apenas a persistência, mas a crueza de uma violência anunciada e repetida. Números e casos repetidos, chocantes, que desafiam qualquer explicação simplista. Por que, mesmo diante de leis e mobilizações, mulheres continuam a pagar com suas vidas pela condição de gênero? O que se espera, agora, do Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio lançado esta semana, justo no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos sem ter conseguido resultados positivos, é muito mais do que uma urgente transformação estatística. É mudança de comportamento. De educação.
Essa propensão à violência não para nas fronteiras do gênero humano. Logo no início de janeiro, o caso que ficou conhecido como “Orelha” — o brutal espancamento de um cão comunitário na Praia Brava, em Florianópolis, que levou o animal à morte — mobilizou protestos mundo afora e gerou indignação nas redes sociais. São episódios como esse que nos confrontam com outra face da agressão: a que recai sobre seres que não têm voz, e cuja dor deveria ser óbvia a qualquer consciência civilizada. Dados recentes indicam que no Brasil foram em média 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia em 2025, uma realidade que exige políticas públicas mais firmes e educação social voltada ao respeito pela vida.
Aí nos perguntamos como, após as notícias repetidas de feminicídios, os casos parecem se multiplicar. As tentativas e as mortes. Há algum novo vírus no ar que transforma homens em psicopatas covardes ou os homens sempre foram assim e nós que não havíamos percebido? E também nos questionamos: após o caso de Florianópolis, o número de agressões a animais aumentou, ou apenas se passou a dar mais importância e espaço para este tipo de crime? Porque é raro o dia em que não nos deparamos com uma nova e assustadora, quase inacreditável, nova notícia de agressão similar. Afinal, o que está acontecendo?
Diante desses números e desses gritos sufocados por trás de manchetes e telas de celular, surge uma pergunta que calha de ser feita: será que essa onda de violência é alguma espécie de resposta bizarra — quase uma perversão de retorno — às discussões que buscamos abrir? Ou será que a humanidade sempre foi assim, e só agora nos damos conta, ao parar para jogar luz sobre essas trevas, do quanto elas são profundas e dolorosas? Talvez a resposta esteja em reconhecer que, sim, a violência tem raízes históricas, sociais e culturais profundas, mas também em acreditar que os bons exemplos podem contagiar com tanta força quanto o mal faz ruído. Precisamos insistir nisso, torcer por isso e, especialmente, agir. Porque só a insistência em reconhecer a dignidade de cada vida, humana ou animal, nos permitirá cultivar um futuro menos violento e mais digno para todos.
