Oscar Bessi

Eu ainda quero acreditar

 

Alguém dirá que a maturidade traz o desencanto. E que a juventude é só um deslumbramento passageiro, apaixonado, inocente. Alguém insistirá em dizer que o descortinar do mundo trará tantas inverdades, tantas decepções, tantas duplas faces, tantos subterrrâneos, que o andar da carruagem da vida será uma sucessão de solavancos, onde só nos resta bater a cabeça e ter náuseas até acostumar. E, ao final, seremos nada além de um poço de remorsos e mágoas, frustrações e incapacidades. Não sei. Tenho dificuldade em aceitar isto. Tenho dificuldade de desistir.

Eu ainda prefiro acreditar em algo, mesmo que a fragilidade do que me move seja um teste a cada vez que a humanidade apronta, em sua constante e muito racional insanidade. Eu ainda quero acreditar, por exemplo, na gentileza. No poder de um sorriso que deixe para lá as discussões, as birras, as turras, as rixas, as implicâncias, as intolerâncias. Na energia de um bom abraço despido de maldade ou segundas intenções. Na alegria de saudar o outro exatamente como ele é, seja de que jeito for. Não é difícil. E é bom.

Quero acreditar no simples. No que vem da humildade e da sinceridade, sem rótulos, sem máscaras, sem pompas forçadas, sem exibicionismos. Eu quero acreditar no natural. Porque a natureza é boa, é perfeita, é sábia e diversa. A natureza aceita todos. O desequilíbrio, a dominação e a ganância é que não são naturais. Eu quero acreditar ainda que, um dia, prevalecerá o sentimento de que cada um pode ser feliz sem ter que pisar, achincalhar ou se apropriar do outro.

Eu quero acreditar que um dia poderemos esquecer as armas porque não precisaremos ter medo de nossos iguais. Eu talvez queira acreditar, mas está cada vez mais difícil, de que um dia não precisarei mais de armas para combater os covardes e os assassinos. Que um dia não mais estimularão venenos à meninada em nome do lucro. Que um dia os falsos, os corruptos, os golpistas de toda sorte não pavimentarão o piso escorregadio dos nossos passos. Eu quero acreditar que o bem ainda tem força e pode vencer.

Eu ainda quero acreditar que um dia vou poder descansar, em paz, sem a incômoda sensação de que a guerra continua lá fora.