(peço aos leitores alguma paciência para ler até o fim)
O Soldado Marcos talvez estivesse triste, apesar de ser um homem alegre e de fácil amizade, apaixonado pelo seu trabalho e adaptado à capital. Ele era de Pinheiro Machado, quem sabe até gostaria de estar servindo lá, na sua terrinha, perto dos seus, da comunidade que mais conhecia, cumprindo o que aprendeu em seu curso sobre polícia comunitária. Mas as distribuições de efetivo hoje não conseguem levar em conta as pessoas destes profissionais, seus desejos ou necessidades - há que se suprir as tantas carências do estado. Ou apaziguar as estatísticas, ou algum bafafá de ocasião (alguns até dizem que se privilegia historicamente os lugares que dão mais retorno em votos, será?).
Mas por que talvez Marcos estivesse desanimado? É que ele faria aniversário na próxima segunda-feira, dia 11. Chegaria aos 25 anos - um quarto de século! -, o que merece uma bela comemoração. O parcelamento de salários atrapalhou seus planos. Talvez tivesse que passar a data em branco. No máximo, adiar, mas conta que atrasa traz juro, algo que salário atrasado não tem. Pena. Queria uma bela reunião com os seus, certamente.
De folga, foi ao mercado. Quatro assaltantes decidiram, justo naquela hora, assaltar o estabelecimento - era tarde, quase dez da noite, um bom horário para roubo: a segurança já está cansada após cruéis doze horas em pé, o movimento encerrando e os cuidados fragilizados, mais preocupados em fechar caixas e arrumar estoques e setores. Marcos só tinha aquele horário, como tantos do povo que passam o dia correndo de um lado para o outro atrás da sua sobrevivência. Poucos têm o luxo de poder escolher os locais e horários mais seguros conforme diz a cartilha.
Marcos reagiu. Porque é policial, da linha dos bons, dos honestos, dos que têm sentimento de dever. Porque não se enganem os que rotulam, as polícias funcionam como todos os grupos humanos: há os incríveis, há os horríveis, há os omissos. Nestes mais de 25 anos de profissão, constato que cresce o número negativo, são mais barulhentos e dão mais manchetes individuais, mas os bons ainda são a esmagadora maioria. Ao contrário de outros setores. Marcos era dos bons. E talvez uma voz lá no fundo de sua alma o tenha avisado, pode dar errado, fique frio, nunca sabe quantos eles são. Só que Marcos, como todo bom policial, não conseguiria encarar aqueles cidadãos ao seu redor, vítimas como ele, mas que com seus tributos pagam - embora quem receba estes pagamentos nem sempre os destine ao que deveria ser - para que os defenda. E aqueles ao seu redor não têm culpa de parcelas, de defasagens, de desvalorizações históricas. São as pessoas que ele jurou proteger mesmo com o sacrifício da própria vida. Um bom policial precisa ser imparcial, controlado, inteligente e coerente. Ele sabia. Mas precisa também ter o coração no "bico da chuteira", nestes tempos nefastos. Então Marcos, um jovem, um apaixonado, não pensou mais em tristezas e problemas e no seu aniversário por vir. Cumpriu o seu dever. Com o coração no bico da chteira. E foi executado. Fria e brutalmente executado.
Peço desculpas aos leitores, mas estou chorando. Chorei quando vi o vídeo do crime no noticiário. Como chorei ao escrever uma cena semelhante no meu livro "O Silêncio mais profundo", ao narrar, em ficção, uma cena real que vivi. Não é à toa que hoje tomo certos remédios. Vivi isto ao lado de colegas que nos deixaram cumprindo seu dever. Sei a dor que vem. E é algo de que não gosto de lembrar, muito menos de falar.
A arma empunhada pelos assaltantes não é só empunhada por eles. Mas por todo um sistema que não funciona. Que libera assassinos de ofício para seguirem fazendo vítimas. Que não recupera e nem educa crianças para que não sejam jovens bandidos. Que não pegam esses jovens formados na violência, forjados no ódio, e os conduz para outros caminhos. Um sistema que dá péssimos exemplos. E que simplesmente trabalha com a matemática dos caóticos números carcerários, toma decisões distantes e abstratas e não se importa com as consequências. O assassino de Marcos não deveria estar aí, não deveria portar arma, não deveria mais matar. Mas estava liberado para tudo isto. Como? Nem preciso responder. Coisas dos atos de um nicho humano muito bem posicionado onde, infelizmente, os bons são minoria.
Também me choca ver o menino, uma criança pequena, quase ser morto também por um tiro e constatar que ninguém, absolutamente ninguém, o amparou. Ele ficou sozinho, desesperado, em meio às balas. Mais uma criança traumatizada pela violência. Quem o ajudará? Os pais que se virem. E nesta cena de bangue-bangue tupiniquim, os aproveitadores não se importarão de verdade com a dor das vítimas, mas explorarão a morte em seus discursos oportunistas e patrocinados.
Outra notícia triste, como tantas que nos ocupam. E nos preocupam. À família e aos que moravam no coração do meu colega Marcos, posso apenas deixar um abraço apertado e sentido de dor. Vamos insistir no sonho de que um dia será melhor. Vamos lutar por este sonho. Tenho certeza que Marcos também sonhava com isto.
