Oscar Bessi

Facas

Edição dominical impressa - 31/5/15

 

Um médico foi morto a facadas num assalto praticado por adolescentes na Lagoa, zona sul do Rio. Novidade? Mais de trinta pessoas morrem esfaqueadas por dia no Brasil. Há diversos assaltos naquela região. Nada que o poder público não saiba, ou possa alegar desconhecimento. Talvez por ter sido um médico, a vítima, o fato ganhou repercussão. E congressistas brasileiros aproveitaram a oportunidade para bradar aos quatro ventos que desengavetarão, finalmente, um projeto de lei, há onze anos parado por lá, que restringe e criminaliza de forma mais veemente o porte de armas brancas. Bah. Os caras são fantásticos. Geniais. Vou ali vomitar e já volto.

A lei do desarmamento já tentou restringir as mortes por armas de fogo. Só tentou. Cinquenta mil brasileiros morrem por ano vítimas destas armas. Então, tudo o que os nobres deputados querem é escrever mais uma lei, um pedaço de papel a ser pendurado nas paredes, para dormirem em paz, com o sentimento de dever cumprido. Que balela! Eu já disse aqui na coluna, quando a polêmica girou em torno da indumentária gaúcha - e o gaúcho mata três vezes menos com facas do que os nordestinos, por exemplo - que este instrumento não tem vida. Uma faca é apenas uma faca. Para uns, instrumento de trabalho. Para outros, arma. A culpa não é dela. É de quem a porta. E de quem incentiva o seu uso para a violência. E quando falo de incentivar, quero inserir o sentido mais amplo disto: podar sonhos, perspectivas, discriminar, excluir, deixar sem saída. Ensinar o óbvio mal quando se ausenta a educação e a igualdade.

Será apenas mais uma proibição de fachada. Mais uma lei a ser descumprida. Uma jogada de marketing político que provoca asco. O que se precisa, e urgente, é resgatar a juventude brasileira, que mata e morre cada vez mais cedo. Salvar estes jovens. Chamar para outro caminho que fale em vida e respeito, cidadania e liberdade. Caso contrário, será apenas retirar as facas de circulação e nada mais. Os crimes prosseguirão. Os assaltos, as mortes, as brutalidades. Sem facas, serão pedras. Proibirão as pedras? Sem pedras, serão as cordas. As unhas. As mãos. Proibirão os meninos mergulhados na violência de ter mãos? Ou se faz um gigantesco, e verdadeiro, pacto nacional contra a violência e se salva esta juventude, ou daqui a pouco os deputados terão que ser muito criativos para encontrar o que proibir, e dar continuidade às suas mídias oportunistas.