Oscar Bessi

Faltas

Coluna da edição dominical impressa do Correio do Povo, em 28/06/15.

 

Há quem pense sobre a insegurança e acredite que apenas ver mais homens fardados e armados por toda a parte resolve o problema. É claro que é bom ter policiais suficientes. O ideal. Melhor ainda com leis efetivas, que dialoguem com seu tempo e seu povo e de fato funcionem, sejam cumpridas. Porém, este tema tão complexo envolve tantas outras faltas, corriqueiras, que muitas vezes nos passam desapercebidas. Que estão aqui, no nosso cotidiano, nos nossos mínimos gestos, no nosso jeito de viver e agir. Nas nossas opções.

Meninos ingressam cedo no mundo das drogas e da violência porque não viram policiais por perto para sentir medo? Não. É aí que começa o elenco múltiplo de faltas. Na ausência de uma verdadeira compreensão sobre o que é educar, que vai muito além de passar a bola para a escola se virar com nossos filhos. É mais. É dar exemplo, é convencer sobre humanidades, eliminar o consumismo inescrupuloso e a moda da prepotência. É saber que colocar um filho no mundo não é apenas o pós-sexo, mas é renunciar, se dedicar. Ter compromisso. Entender que presente não supre ausência e falta de afeto. É amar e mostrar as possibilidades maravilhosas do amor.

A falta de respeito e consideração pelo outro, na simples lembrança de que esse outro existe e está ali, pode ser vista no nosso trânsito. Que mata mais a cada ano do que uma guerra inteira como a do Vietnã. Precisamos policiais armados para entender que há várias vidas entrecruzadas neste cenário? E entender que a velocidade, o excesso, o abuso e o desrespeito à regra pensada para equilibrar o coletivo, são agressões, por vezes fatais, ao próximo? Preferimos a pressa, a imposição pelo tamanho ou potência do motor, o exibicionismo e a irresponsabilidade. Uma opção. E quem opta, poderia pensar diferente. Poderia não tirar o pé apenas ao ver um fiscalizador ou pardal. Poderia lembrar-se das vidas ao seu redor no trecho inteiro.

Se não faltasse coerência, o amante da música não a ouviria a ponto de perturbar quem está perto, mas a degustaria consigo. Se a mulher for vista com respeito, não como coisa passível de posse, muitos processos inexistiriam. Onde houver tolerância, não há brigas, e as viaturas seguem seus patrulhamentos preventivos contra outros crimes. Se não faltar caráter, não se precisa perder tempo atrás de corruptos, fraudadores e outros egoístas mercenários. Difícil? Utópico? Não. Pura escolha, creio. Está dentro de nós. Claro, todos nós queremos uma sociedade bem policiada e protegida, mas se a coisa pública não anda bem, esperar soldados para resolver todos os problemas não dá certo. Há que se fazer a nossa parte. E a nossa parte é bem simples: atitude. Não resolve tudo, claro. Mas dá uma baita ajuda.