Oscar Bessi

Feminicídios: necessidade de mudança real

Para reverter este quadro, precisamos olhar além das leis e observar as raízes socioculturais da violência. É apenas quando a sociedade inteira — homens e mulheres, jovens e idosos — reconhece e confronta as ideias que alimentam a violência de gênero que podemos, de fato, sonhar com um futuro em que histórias, como as que rechearam a crônica policial destes últimos dias, não façam mais parte constante de nossas estatísticas.


O ano de 2026 começou triste, pesado. Só em três semanas de janeiro, já se tem mais feminicídios que durante todo o mês anterior. Isto após 2025 bater o macabro de recorde deste crime no Brasil: 1470. Quatro mulheres mortas por dia apenas pelo fato de serem mulheres. Em dez anos, mais de 41 mil vidas femininas ceifadas. Famílias destruídas. Crianças órfãs, traumatizadas, quando não também assassinadas. No Rio Grande do Sul, o feminicídio também aumentou em 2025: 80. Mas há outros dados que dizem muito sobre nossa sociedade. Mais de 70 mil mulheres estupradas em apenas um ano, o que dá quase 200 por dia. Estupradas! Mais de 230 mil meninas sendo mãe antes dos 14 anos. E uma esmagadora maioria de jovens mulheres que abandonam os estudos entre a adolescência e a faixa dos vinte anos, a maioria obrigada a abandonar seus sonhos e projetos pessoais de vida para cuidar dos filhos, de uma casa, de um marido. Muitas delas sem que seja uma escolha, mas apenas uma violência tirânica e silenciosa.

Para reverter este quadro, precisamos olhar além das leis e observar as raízes socioculturais da violência. Políticas públicas eficazes passam por educação de gênero desde os primeiros anos escolares, formação contínua de profissionais que lidam com o público (saúde, educação e segurança), apoio psicológico e financeiro contínuo a mulheres em situação de vulnerabilidade, além de campanhas que mudem a percepção social sobre masculinidade, poder e afeto. É apenas quando a sociedade inteira — homens e mulheres, jovens e idosos — reconhece e confronta as ideias que alimentam a violência de gênero que podemos, de fato, sonhar com um futuro em que histórias, como as que rechearam a crônica policial destes últimos dias, não façam mais parte constante de nossas estatísticas. E sejam apenas um improvável, ainda que possível, desvio no comportamento humano.

As forças de segurança fazem a sua parte, ainda que imersas nas limitações de suas estruturas, ainda mais na falta de recursos humanos dedicados exclusivamente a estes crimes. Um Guarda Municipal, em Bento Gonçalves, deu uma aula de interesse pelo próximo e empatia, ao salvar uma mulher que ligou desesperada para a central disfarçando o socorro que não podia gritar em um inusitado pedido de pizza. A brigada Militar foi ágil e consegui salvar duas mulheres de seus agressores na capital, uma delas antes até de ser agredida a facadas. A Polícia Civil, na Operação “Ano Novo, Vida Nova”, prendeu 29 agressores de mulheres, cumpriu 41 mandados e apreendeu 04 armas de fogo na mão desses criminosos. Porém, dos mais de 13 mil pedidos de proteção a mulheres vítimas de violência, no estado, apenas 803 homens estão com tornozeleira eletrônica. O sistema judicial precisa estudar formas de mudar este quadro. Assim como muitos municípios precisam descruzar os braços e fomentar de fato suas redes de proteção.

Em 2026 completamos 20 anos da Lei Maria da Penha. Uma ótima lei. Mas, no nosso país, leis apenas para bonito não são nenhuma novidade. Temos o instrumento. Mas o número elevado de crimes mostra que a estratégia de enfrentamento está equivocada ou insuficiente. Ler estes números e relatar casos é urgente, mas transformar as causas profundas é imperativo. Enquanto ainda tivermos mulheres morrendo por serem mulheres, saberemos que falhamos como sociedade. E é essa consciência, dolorosa, que deve impulsionar ações coletivas. Nas escolas, nas casas, nas políticas públicas e nas interações diárias. Precisamos, para ontem, muito mais do que números melhores. Precisamos mudança real.

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