A morte da bombeira civil Gislaine Beatriz Rodrigues, em Guaíba, assassinada a facadas pelo ex-companheiro enquanto o filho de apenas 10 anos estava em casa, não é apenas mais uma tragédia individual. É a confirmação dolorosa de que o comportamento masculino que mata mulheres segue praticamente inalterado, apesar de leis, estruturas estatais, campanhas e sucessivas comoções públicas.
O feminicídio não nasce no momento do golpe fatal; ele é construído lentamente, na cultura da posse, do controle e da incapacidade de muitos homens aceitarem o fim de uma relação ou a autonomia feminina.
O caso de Gislaine repete um padrão já conhecido: a maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-parceiros. No Brasil, mais de mil mulheres são vítimas de feminicídio por ano, desde que o crime passou a ser tipificado, numa média de quase quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero. Cada estatística dessas vai muito além de um número macabro: carrega histórias interrompidas, crianças traumatizadas e famílias destruídas.
Esses números deixam claro que o problema não se resolve apenas com repressão penal. Ele é estrutural e cultural. Enquanto meninos continuarem sendo educados para confundir amor com posse, ciúme com cuidado e autoridade com violência, seguiremos enterrando mulheres. A persistência do feminicídio revela o fracasso coletivo em enfrentar o machismo cotidiano — aquele que se manifesta em piadas, discursos de ódio, tolerância à violência psicológica e deslegitimação das denúncias feitas por mulheres.
Mudar esse cenário exige políticas públicas integradas. Na educação, é fundamental investir em programas contínuos que promovam igualdade de gênero, respeito e resolução pacífica de conflitos desde a infância. Na cultura, campanhas permanentes precisam questionar estereótipos e apresentar novas referências de masculinidade. Na segurança pública, é urgente fortalecer delegacias especializadas, tornar medidas protetivas mais eficazes, ampliar casas-abrigo e integrar polícia, justiça, saúde e assistência social para agir antes que a violência escale.
Mas o enfrentamento ao feminicídio não é tarefa exclusiva do Estado. Cada um de nós tem responsabilidade direta. Denunciar sinais de violência, romper o silêncio cúmplice, intervir quando possível, educar filhos e dialogar com homens sobre limites, respeito e responsabilidade são atitudes que salvam vidas. Fingir que se trata de um “problema do casal” é parte do mecanismo que perpetua essas mortes.
A morte de Gislaine Beatriz Rodrigues precisa ser mais do que luto e indignação passageira. Precisa se transformar em reflexão profunda e ação concreta. Enquanto o comportamento masculino não mudar, o feminicídio continuará sendo uma tragédia anunciada — e a sociedade, cúmplice pelo silêncio, seguirá contando mulheres mortas. E crianças órfãs.
