Oscar Bessi

Feminicídios: o triste cenário que se repete no RS

Quatro mulheres assassinadas, apenas no RS, em menos de três semanas do novo ano. Foram 73 em 2024 e 80 em 2025. Mais de 41 mil mulheres assassinadas em dez anos no país. Mais de 70 mil mulheres estupradas em apenas um ano. Mais de 230 mil meninas sendo mãe antes dos 14 anos. E uma esmagadora maioria de jovens mulheres que abandonam os estudos. Só esses dados já falam muito sobre como a nossa sociedade trata suas mulheres.

Mas por que diante de tantas campanhas, notícias, apelos, leis, estruturas que se ampliam na proteção dessas vítimas e discursos que se repetem sempre no mesmo tom, esta violência persiste?
Mas por que diante de tantas campanhas, notícias, apelos, leis, estruturas que se ampliam na proteção dessas vítimas e discursos que se repetem sempre no mesmo tom, esta violência persiste?

Sim, é muito triste. O ano de 2026 inicia com as mesmas manchetes de sempre: outro feminicídio, outra mulher assassinada pela estupidez de um homem, outra vida apagada, outro ciclo de dor e incredulidade. Ontem, foi em Porto Alegre. Domingo, em Santa Rosa. Elas se somam às vítimas de Canguçu e Guaíba. Quatro mulheres assassinadas, apenas no RS, em menos de três semanas do novo ano.

Enquanto muitos fazem planos e traçam resoluções para 2026, a cruel realidade do feminicídio segue como uma sombra que não se dissipa. No Rio Grande do Sul, casos como o da mulher esfaqueada em uma parada de ônibus, na zona sul de Porto Alegre, por um ex-companheiro na tarde desta segunda-feira, reforçam que a violência de gênero segue uma ferida aberta e aparentemente incurável na sociedade gaúcha e brasileira.

Por quê? Mas por que diante de tantas campanhas, notícias, apelos, leis, estruturas que se ampliam na proteção dessas vítimas e discursos que se repetem sempre no mesmo tom, esta violência persiste?

A resposta está enraizada em fatores culturais, comportamentais e educacionais. Há um tecido social que ainda naturaliza a dominação masculina e relativiza os sinais de controle e agressão no contexto de relacionamentos. Desde a infância, muitos aprendem, direta ou indiretamente, que determinadas formas de comportamento – ciúmes, possessividade, controle – são “normais” no amor, quando na verdade são expressões de poder e controle que podem escalar para a violência letal. A educação que reproduz estereótipos de gênero e uma cultura que tolere, minimize ou justifique a violência doméstica alimenta essa brutalidade, gerando um ciclo que nem sempre é quebrado pelos instrumentos legais.

Os números mais recentes confirmam que a violência letal contra mulheres no Brasil seguem alarmantes. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, o país registrou 1.450 feminicídios em 2024, um número que, apesar de estar praticamente estável frente a anos anteriores, traduz uma mulher morta a cada aproximadamente 17 horas. Um ritmo brutal que nem sempre cabe em manchetes curtas. No Rio Grande do Sul, dados oficiais apontam que 73 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, com uma taxa de 1,2 vítimas por 100 mil mulheres. Em 2025, o número saltou para 80.

Ainda que leis específicas e políticas públicas tenham sido implementadas — incluindo instrumentos como medidas protetivas, linhas de denúncia (como o 180) e cursos de formação para atendimento de mulheres vítimas de violência — o impacto prático enfrenta barreiras. O aumento de denúncias registradas, por exemplo, pode indicar maior acesso a canais de denúncia, mas não necessariamente significa que o caminho para a proteção efetiva seja simples ou rápido. A própria resposta do Estado muitas vezes ainda é lenta ou ineficiente: medidas protetivas descumpridas, estrutura policial aquém da necessidade de um atendimento exclusivo e sistemas de apoio social que não conseguem acompanhar a urgência das situações cotidianas mostram que leis são necessárias, mas sozinhas não bastam.

Outros dados do Raseam 2025 precisam ser olhados com muita atenção. Mais de 41 mil mulheres assassinadas em dez anos no país. Mais de 70 mil mulheres estupradas em apenas um ano, quase 200 por dia. Mais de 230 mil meninas sendo mãe antes dos 14 anos. E uma esmagadora maioria de jovens mulheres que abandonam os estudos ainda entre a adolescência e a faixa dos vinte anos. Só esses dados já falam muito sobre como a nossa sociedade trata suas mulheres.

Para reverter este quadro, precisamos olhar além das leis e observar as raízes socioculturais da violência. Políticas públicas eficazes passam por educação de gênero desde os primeiros anos escolares, formação contínua de profissionais que lidam com o público (saúde, educação e segurança), apoio psicológico e financeiro a mulheres em situação de vulnerabilidade, além de campanhas que mudem a percepção social sobre masculinidade, poder e afeto. É apenas quando a sociedade inteira — homens e mulheres, jovens e idosos — reconhece e confronta as ideias que alimentam a violência de gênero que poderemos, de fato, sonhar com um futuro em que histórias como a de Porto Alegre não façam mais parte constante de nossas estatísticas. E sejam apenas o sempre improvável no comportamento humano.

Ler os números e relatar casos é urgente; transformar as causas profundas é imperativo. Enquanto em 2026 ainda tivermos mulheres morrendo por serem mulheres, saberemos que falhamos como sociedade. E é essa consciência, dolorosa, que deve impulsionar ações coletivas. Nas escolas, nas casas, nas políticas públicas e nas interações diárias. Precisamos, para ontem, que um novo ano traga muito mais do que números. Traga mudança real.

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