
Fotos:
1) O fato: Portal do Agreste - www.portaldoagreste.com, de Rui Siqueira.
2) Livro Heróis de sua própria História, de Jézica Bruno.
3) Livro O Beijo na Parede, de Jeferson Tenório.
Com uma real, porém triste e muitas vezes não admitida, frequência, nós perdemos lutas para nós mesmos. Uns procuram abrigos em remédios, raros afortunados descobrem o amparo possível do amor, outros tantos se entregam e caem em vícios. Perdem-se de si e do mundo ao seu redor. Francisco Erasmo Rodrigues de Lima, 61 anos, foi vencido pelo álcool. Por si. Eu vejo as imagens deste homem e tento adivinhar sua vida. Seus passos certos e errados. Onde tropeçou, de onde não se ergueu mais. De onde levantou para se tornar um mito verdadeiro, sem empresários, apelos e estratégias de publicidade.
O homem que é o herói nacional - eleito pelo olhar comovido do povo -, mostrado ao mundo em plena Semana da Pátria como nossa imagem mais forte, era morador de rua há dez anos. Tinha o mesmo nome do Papa. A família, que talvez até então o tenha ignorado, desprezado e deixado de amparar, quem sabe até dado o último golpe de sua derrota pessoal ou respirado aliviada com sua ausência, agora se emociona e o elogia. Diz que sentirá sua falta. Pode até ser sincero, nalguns momentos, o que dizem. Não os conheço para julgar. Seria um erro fazê-lo. E todos somos forte e fracos, somos humanos. Todos nós sabemos o quão difícil é ter, ao lado, alguém que perde suas próprias lutas, suas guerras internas nascidas lá na infância, ou nalgum passo cansado ou equivocado do caminhar sofrido de seus dias sem esperança, ou plenos de frustração, ou de traumas irreversíveis. Na falta de afeto, compreensão, caminho. Porém, nada é fácil. Para ninguém. E se importar com o outro não existe sem alguma renúncia, sem mínimos sacrifícios. Também faz parte de amar.
Confesso que me recusava a ver o vídeo do que ocorreu na Catedral da Sé. Desconfiava ser mais uma destas explorações da tragédia cotidiana, cujos matizes rubros e cinzentos não me atraem. Meu cotidiano policial, misturado a uma nesga crítica de lucidez, sempre me afastou dessas vertentes. Julgo ser uma masturbação masoquista desnecessária à alma de quem já vive os horrores do lado B da racionalidade humana. Até vê-lo postado na página pessoal do Facebook de um amigo que admiro demais: Marco Cena, editor, escritor, ilustrador, presidente da Câmara Rio-grandense do Livro. Um intelectual de convicções, humanidade e trajetória admiráveis. Se ele se importou, pensei com meus botões, então é importante. Só aí encarei o que aconteceu.
Mais triste não foi ver certa exploração do fato que usou a família, agora arrependida e só vendo qualidades, sentindo até a falta de Francisco após dez anos. Triste foi ver parte da imprensa do centro do país falando de sua ficha criminal (colocar pessoas em risco, provocar um incêndio, ser enquadrado por receptação). Três casos em dez anos. Qual a história por trás de cada um? De um homem que vivia na rua com seu vício, sua derrota, mas trabalhava sempre que podia e ligava para saber como estavam os filhos de telefones públicos. De um homem que ainda brincou que seria herói, com seu jovem parceiro de sarjeta e miséria, minutos antes de morrer. Tinha alma. E amor: se importava, como poucos "normais". Morreu por isto. Ele tinha chance de uma nova vida. Todos nós temos chances, pelo menos enquanto a mente ou o corpo ainda suportarem salvação. Ou quando alguém se importar de fato, ou soubermos compreender a vida humana.
A mesma imprensa pediu análises de imagens tentando ver tiros policiais na sua morte. Embora tudo esteja claro, a meu ver, e torço para estar certo. Estes, não suportam a ideia de uma polícia para o povo, ao lado do povo. Precisam jogar um contra o outro para ajudar o cenário de quem apóiam. Nem aturam a ideia da democracia real, do povão anônimo imerso nas suas simplicidades, mas com o poder de verdade nas mãos. Defendem golpes no mesmo tom de blogs reacionários que usam as tragédias e dores alheias como argumento para defender intolerâncias.
Francisco é um herói de fato. Um morador de rua. Um mártir sem esperança que foi a única mão estendida, em meio ao caos, a se importar com quem nem conhecia. Lembrei muito do fantástico e humano livro "Heróis da sua Própria História", da jornalista Jézica Bruno, do Correio do Povo. E do emocionante "O Beijo na Parede", de Jeferson Tenório. Francisco é um símbolo do que somos e não conseguimos ser. Perdeu para si por tanto tempo, até vencer o mundo e seus olhares plenos de desamor e equívocos.
