Há crimes torpes, que chocam pela brutalidade do ato em si. Eles desfilam todos os dias pelo nosso noticiário policial e mostram que o ódio, a violência e a estupidez são, infelizmente, muito humanos e quase banais. Assim como a astúcia macabra, a esperteza vil, a ganância inescrupulosa também são. E nossa definição de hediondo precisa incluir todos aqueles que, de uma forma ou de outra, usam a aflição, a fragilidade e até a esperança das pessoas para lucrar. Mesmo que isso custe vidas. Esses crimes, cujos alvos são a saúde de seres humanos, nos deixa com dificuldade de exercitar o mais nobre exercício da nossa racionalidade: o perdão. Porque médicos que batem ponto e desaparecem sem fazer seus atendimentos públicos, ou gente que frauda orçamentos para se beneficiar em ações judiciais, lesando planos de saúde, sinceramente, não são melhores do que alguém que compra arsênico para envenenar um bolo, ou que traficantes e assassinos. É tudo muito premeditado. Bem pensado, calculado, num crime cometido com absoluto desprezo à vida.
Médicos batiam ponto e fingiam trabalhar em hospital público, para receber generosos salários do governo. Porém, sumiam e deixavam de atender milhares de pessoas, gente que sofre com suas dores e desesperos nas filas intermináveis do SUS. Enquanto eles, os “doutores” falsários, vergonha para esta classe tão respeitável e essencial a todos nós, atendiam em suas clínicas particulares – ou, ainda, num deboche absoluto, corriam para malhar na academia, nem aí para o sofrer alheio. Esses fraudadores que lesam planos de saúde – e muito além dos planos de saúde, quem paga religiosamente por eles e não recebe atendimento devido – identificados pela Operação False Care, esta semana, golpearam também ações judiciais movidas contra o IPE Instituto de Previdência do Estado – o IPE Saúde. As investigações sobre os golpes apuram danos ao erário espalhados pelo estado. Quando a gente sabe disso, fica pensando nos milhares de profissionais que se dedicam á vida dos gaúchos, como policiais e professores, e que dependem do IPE como seu plano de saúde, e sofrem com a falta de atendimento e o velho discurso de quebradeira do instituto. Talvez esteja aí uma das explicações.
Ano passado, bem nos dias em que as cheias me exigiam uma luta para reerguer o meu quartel, devastado pelas águas, e me faziam me engajar nas necessidades do meu município, fortemente afetado, quase perdi minha mãe para um mal do coração. Viúva de policial e idosa, o plano de saúde dela é o IPE. Pois precisamos entrar com ação judicial para garantir procedimentos que deveriam ser cobertos pelo plano. Mas um fato muito estranho ocorreu e me exigiu fazer boletim de ocorrência policial: o IPE acatou a decisão judicial, mas alegou que o procedimento já havia sido realizado por um médico (que minha mãe nunca viu na vida) e nos mandou os documentos que o cidadão remetera. Ou seja? Nem preciso explicar. Enquanto milhares de doentes com salários minguados oram por esperança e algum atendimento, se agarram nas decisões judiciais para assegurar o que já devia lhes ser assegurado ao natural, sanguessugas se aproveitam da situação para fraudar, enganar e lucrar. E (por que não?) matar. Sem pudor. Há alguém que ajuda esses criminosos com informações privilegiadas? Que a investigação descubra. Que a justiça puna exemplarmente. E que, acima de tudo, esta operação inspire todo cidadão a não aceitar passivamente qualquer indício de aproveitamento oportunista e desonesto da sua dor.
