Oscar Bessi

Gauchão para o mundo

Coluna dominical - edição impressa Correio do Povo 03/5/15

Gosto de futebol. E sou Xavante. Meu avô lutava boxe e era pelotense. O Brasil de Pelotas é o time mais apaixonante do país, por sua torcida, por sua história, pelas dificuldades que enfrenta e supera. Um dia sonhei em jogar lá. Faz tempo, muito tempo. Quando percebi que sou daqueles tipos que, quando estão em campo, os amigos raramente passam a bola, abortei meu futuro como craque e fiquei só na torcida. E, como apaixonado por futebol, hoje não perco a final do Gauchão por nada.

O Internacional é o segundo clube pelo qual nutro maior simpatia, embora torça sempre, e antes, para que todos os outros times do nosso interior façam bonito, seja onde for. Ainda mais com essas fórmulas ingratas, de campeonatos televisivos que os empobrecem e reduzem, deixando comunidades tradicionais do futebol pampiano, como Santa Maria, Livramento, Bagé e São Borja, reféns de ter que assistir de longe, e no máximo, a dupla porto-alegrense, quando não a overdose enfadonha de paulistas e cariocas na TV. O futebol gaúcho merece mais respeito. E começa pela valorização do interior.

Hoje, porém, hoje é o Dia D para todos nós, gaúchos. Os que amam o futebol e os que nem gostam tanto assim. Este primeiro domingo de maio, logo após se homenagear os trabalhadores - ainda que na semana das vergonhas paranaenses - e antes de beijar as mães, será especial. Um dia chave. Pelo menos para todos nós, que sonhamos com uma inversão dessa lógica perversa, e triste, para a qual nossa sociedade caminha de um jeito estranhamente autômato: o crescimento da violência, a cultura da banalização do conflito e da agressão, física ou verbal. Até agora, o mundo nos aplaudiu de pé pelo exemplo da torcida mista em Grenal. Deu certo. Duas vezes. Só que precisa, acima de tudo, dar certo hoje.

Nos jogos anteriores, dois empates. E nada decidido de forma definitiva. Nenhuma paixão teve motivos para atingir os níveis de inquietação vulcânica do Calbuco. Hoje é diferente. Um perde. O outro é o campeão. Na disputa direta, sem chance de reverter num outro dia. Uma das maiores rivalidades do planeta estará em campo numa finalíssima. Os jogadores, estes têm o compromisso de proporcionar um belo espetáculo. Mas eles, assim como dirigentes e treinadores, devem ser os primeiros a pensarem antes de agir, antes de provocar, antes de falar, incitar ou brigar. A torcida está de olho neles. E se atiça. O mundo está de olho em nós. Qualquer insensatez pode ser o estopim de uma tragédia, aquela que fará os amantes da discórdia, e do belicismo, encher a boca para dizer que é bobagem isso de dar as mãos, tem que ser mesmo é na porrada e na proibição. Não, nós precisamos do contrário. Precisamos da prova de que, sim, podemos ter paz. Até numa batalha de paixões.