Oscar Bessi

Herói? O Pablo Escobar?

caderonO presidente colombiano, Juan Manuel Santos Calderón, deu uma aula de dignidade na Espanha. Em entrevista à rádio espanhola Onda Cero,  disse: "Pablo Escobar era um assassino, que não merece, em nenhuma circunstância e de nenhum ponto de vista, ser exaltado como um herói". Ele se referia a uma propaganda enorme no coração da capital espanhola referente à série de TV Narcos. Para vender seu produto, os anunciantes não se deram ao trabalho de parar e pensar no que Pablo Escobar significa para o povo da Colômbia. Que mania essa, do ser humano, de focar só no seu umbigo e nunca lembrar do próximo, hein? Nunca pensar que cada ato, fala ou gesto nosso pode ter consequências e reflexos ao outro?


Disse bem o presidente: um sujeito desses não merece, em nenhuma circunstância e de nenhum ponto de vista, ser exaltado.


É o que estamos precisando. Parar com essa idolatria a bandidos que parece ser uma febre. E, já podemos perceber, não é coisa que só acontece no Brasil.


Só os colombianos - o mesmo povo que nos emocionou com sua solidariedade no episódio da tragédia com a delegação da Chapecoense - sabem o que passaram sob o jugo de Pablo Escobar. Tirano e terrorista, além de cabeça de uma organização criminosa que não pensava duas vezes antes de matar, e matar muito, este nome só pode ser relacionado a tudo o que há de ruim na face da terra.


Tudo bem, arte é arte. Mas volta a velha discussão dos cuidados e formas com que a arte se manifesta sobre certos temas. É preciso liberdade, sempre! Mas um mínimo de respeito aos milhares de mortos pelas mãos de Pablo Escobar, ao futuro tantas vezes sonegado ao povo colombiano, deveria existir.


Quem foi Pablo Escobar? Um líder, por acaso? Um representante de povos ou massas?


Não. Ele era um criminoso. Um sujeito que escolheu ser bandido para ter lucro e vida fácil, que expandiu sua rede, que inaugurou uma cadeia do mal que se alastrou além das fronteiras do seu país, e muito além. Nós, brasileiros, sofremos até hoje consequências funestas das ações de Escobar.


O povo colombiano ainda sofre.


E a Colômbia precisou superar a tirania, a violência, a guerra interna, as ameaças, as mortes, o terrorismo, a corrupção e os interesses escusos internacionais para poder se reerguer. Precisou investir pesado em educação e humanização de seu povo. Na Colômbia, a literatura é um desses pilares de humanização, ao contrário do Brasil - que parece ter gestores públicos e outros, por aí, que apreciam o lucrativo negócio da violência, da ignorância e do medo.


Há uma diferença oceânica entre esses dois personagens. Calderón mereceu o Prêmio Nobel da Paz por seu incansável propósito em por fim á guerra civil que assola seu povo há seis décadas. Escobar viveu de criar novas guerras e matar pessoas, pelas armas dos seus ou pelas drogas que vendia mundo afora.


Um povo que chora suas feridas e luta de forma árdua por dias melhores não merece ter suas vidas desprezadas por um irresponsável qualquer que apenas quer aparecer.


Foto de Calderón, acima (não vou postar foto de Pablo Escobar, me recuso): Cesar Carrion / Colombian Presidency / AFP / CP.