Heroísmo entre as chamas

Heroísmo entre as chamas

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(coluna da edição impressa de sábado, 15 de agosto de 2020)

Esta história incrível aconteceu na charmosa Barão, cidade integrante do Caminho das Velhas Colônias, ali na divisa entre a Serra Gaúcha e o Vale do Caí. Na madrugada extremamente fria da última noite do mês de julho deste ano incomum de 2020, os Soldados Mello e Fidélis, do 5º Batalhão de Polícia Militar, estavam prontos para enfrentar o calor de qualquer ocorrência. Mas não esperavam que isso fosse acontecer assim, ao pé da letra. Em torno de 01h30min, após abordarem um veículo em atitude suspeita na cidade, patrulhavam um dos bairros do município quando viram o clarão de chamas. Era uma casa pegando fogo. De imediato, os dois jovens policiais militares não pensaram em mais nada, foram ver se havia alguém precisando de ajuda. E, sim, havia.

O vídeo feito por uma vizinha impressiona. Os dois policiais ingressam em meio às chamas, acordaram o dono da casa que sequer sonhava com o que estava acontecendo. Este avisou que justo na peça da casa que incendiava, havia um funcionário seu. Os soldados não pensaram duas vezes: salvaram ambos. E ainda, munidos de uma mangueira de jardim, lutaram contra o fogo e com a ajuda de um vizinho, conseguiram debelar as chamas. Quando os bombeiros voluntários chegaram, foi apenas para fazer o rescaldo. Mello revelou não ter pensado em medo, na hora, apenas em cumprir sua missão. Ignorando o risco das chamas e da fumaça, talvez de uma possível explosão nada incomum nestes casos, pois as residências tem botijões de gás, e sem qualquer proteção mais adequada, como as que um bombeiro teria para atuar numa ocorrência desse tipo, os dois não titubearam em arriscar a própria vida.

A vida de um policial é um eterno se arriscar. É correr, por dever e compromisso, ao encontro do perigo, enquanto todos os demais têm a opção de fugir para o mais longe que puderem. Todos os dias, neste país, talvez um ou outro policial cometa erros, mas muitos, a maioria esmagadora, age corretamente, enfrenta poderosos e seu jeitinho, corruptos prepotente, bandidos bem armados e intolerâncias que nascem na ausência de educação e civilidade. Muitos guardiões anônimos se arriscam na defesa de desconhecidos, e sequer são lembrados no dia seguinte, sequer um gesto de agradecimento recebem. Ao contrário, são jogados no mesmo balaio dos que agem de forma incorreta e ganham notoriedade negativa. Mas há certas histórias que temos a obrigação de contar. Porque elas extrapolam o que chamamos de dever e ingressam na galeria do heroísmo. É o que se pode dizer sobre a ação dos soldados Mello e Fidélis, em meio ao fogo, naquela madrugada fria de julho, em Barão. Heróis. Não há outra definição.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895