Estava escrevendo quando a campainha tocou. Interrompi o texto sem muita vontade e espiei pela janela, contrariado. Dentre as coisas que me chateiam, talvez uma das mais fortes seja esta - ser interrompido no meio de uma ideia que, depois de muita luta, encontrou o papel. Afastei a cortina. E o meu humor voltou na hora em que o vi. Era Bernardo. O corpo teso, como o menino que anda sempre naquela expectativa de que será repreendido, um sorriso tímido. Ele me olhou e acenou apenas com a mão, num movimento discreto. Avisei meu filho, "O Bê está aí!". Eles eram amigos, muito amigos.
Ele têm a mesma idade. Eles têm a idade das melhores coisas que ainda lembro.
A vontade de escrever foi substituída pelo desejo de estar com eles. Gosto de brincar com meus filhos, com os amigos dos meus filhos. Jogar campeonatos de videogame, bater uma bola, guerrinhas de nurf, elaborar torneios de dama e gamão com o tabuleiro que comprei na praia, numa loja de 1,99. Gostamos de ver filmes juntos. Compro doces, guaraná, bolachinhas recheadas. Um pouco da infância que não tive, eu degusto com meus pequenos.
Eles brincaram animados. Então pegamos as bicicletas e fomos ao parque. Pus uma mochila enorme nas costas para que coubessem dois skates e a bola. Ficamos lá até quase escurecer, então decidimos ir embora. E via meu filho rir. E via Bernardo feliz.
Como nestas coisas inexplicáveis e desconexas dos sonhos, mesmo os que nos parecem tão palpáveis e reais, decidimos ir todos ao cinema, ver Vingadores 2. Os meninos exultaram quando concordei. A felicidade é simples, nesta idade, e plena de fantasia. Então fomos. De bicicleta mesmo, rindo o tempo todo.
De repente, o Bê começou a ficar para trás. Nós o chamávamos. Ele foi perdendo o sorriso e se tornou um vulto na escuridão, até desaparecer por completo. Meu filho gritou para que eu fizesse alguma coisa. E eu acordei, num susto, com o coração apertado.
Tenho dormido quase bem, ultimamente, graças ao Rivotril. Depois de anos de pesadelos e insônias. Desci, fiz um café e fiquei pensando sobre o que sonhei. Não o considerei um pesadelo. Afastei as culpas, mesmo que tenha me sentido mal no final do sonho, que tenha me sentido impotente e inútil. E, num arroubo de infância, pensei que não seria de todo mal que os Vingadores pintassem por aí, a salvar o mundo. Mas que salvassem Bernardo e tantos outros pequenos. De nossos próprios monstros.
