Holding do crime

Holding do crime

Oscar Bessi

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Como seria bom se fosse aqui. Mas é na Itália. O julgamento de cerca de 350 réus, todos membros ou com conexões com a máfia calabresa Ndrangheta, começou na última quarta-feira. E vai levar uns dois anos, no mínimo, afirmam as autoridades locais. O promotor do caso, Nicola Gratteri, definiu a organização criminosa como uma “holding do crime”. Uma empresa maior, cuja finalidade é controlar empresas menores em diversos campos de negócios. A Ndrangheta movimenta mais de 60 bilhões de dólares por ano com assassinatos, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro, abuso de poder, crimes de colarinho branco, roubos, tráfico de armas e por aí vai. Cinquenta e oito testemunhas decidiram quebrar a omertà – lei do silêncio punido com sangue pelas máfias – e vão revelar segredos profundos do clã Mancuso e seus sócios. Vai morrer mais gente.
Conhecemos essas máfias italianas do noticiário real e do cinema, como o clássico “O Poderoso Chefão”. Nada diferente do que vemos por aqui. Meu sonho é ver a Justiça brasileira colocando no banco dos réus criminosos de todos os matizes, seja por tráfico de drogas e armas, pela indústria do roubo de carros ou ataque a bancos, pelas campanhas políticas financiadas por bandidos, facções criminosas ou milícias. Deveriam sentar todos juntos, num mesmo tribunal gigante, dando explicações sobre suas farras, crimes e destruições através dos anos. É vergonhoso vermos, por exemplo, que enquanto o povo morre e sofre, e o país patina na luta contra o coronavírus, gestores públicos encontrem tempo e estômago para condenar mais cidadãos à morte, ao fraudar compras de respiradores, remédios e desviar recursos da Saúde. Não são crimes pequenos. Nem isolados. As máfias que dominam este país estão muito bem organizadas, interligadas. São holdings do crime que administram nossos medos com líderes, ou amigos dos líderes, bem refestelados em palacetes. E com o nosso aval.
Aqui, há quem queira terminar com a delação premiada. Traição é vil, mas no caso de ladrão que entrega ladrão, algum mínimo perdão é preciso conceder. Ou não saberemos jamais como tudo funciona e deixamos os carrapatos livres para sugarem indefinidamente nosso suor e nosso sangue. Precisamos que os bandidos nos contem quem são seus corruptos de estimação, sejam eles políticos, empresários ou policiais. Na Calábria, Luiggi Bonaventura é uma testemunha que aceitou colaborar. Como milhares de brasileiros, ele conheceu armas e violência ainda menino e, ao decidir contar tudo o que sabe, sofreu dois atentados em 12 horas. A loja da sua mulher foi incendiada. Mas a Justiça não se abalou e o julgamento segue firme. O recado foi dado, a lição virá. Que se imite por aqui. 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895