Nalgumas vezes discordo do Simão e seus ditos bigodudos. Eu e o seu sócio, o Detetive Edgar Leão, que, aliás, nem sei por onde anda. Esta semana, lendo sobre o homem flagrado pela reportagem do Correio do Povo espancando a mulher na Avenida Farrapos, num ato de covardia à luz dos olhares do mundo - portanto, sem qualquer constrangimento -, Simão me veio com esta. "Homem que bate em mulher é esterco". Está certo, ele quis comparar aquele sujeito ao mais asqueroso estrume, à mais nojenta das fezes, dessas que se alastram por aí sem a delicadeza de um vaso sanitário para se refugiar. Mas discordei na hora: o estrume, a gente ainda aproveita na plantação como adubo. Tem traficante que aproveita para engordar maconha, também. Agora, aquele sujeito, e outros tantos por aí, nem para adubo.
Impressionam os números. São 121.771 ações referentes à violência contra a mulher em tramitação no Tribunal de Justiça do RS, sendo 58.483 pedidos de Medidas Protetivas. Por que será que nem metade merece proteção? Não precisa? Bom, as proibições de afastamento chegam ali na casa dos 20 mil. Considerando que o efetivo policial não alcança estes números, e ainda tem que cuidar de traficantes abutres, loucos do trânsito, bancos a serem explodidos, assaltos a mão armada e muito mais, pobres mulheres gaúchas. O quadro é desanimador.
A cultura machista mata. E muito. No Brasil, temos uma média de 15 mulheres mortas por dia e mais de meio milhão de estupros por ano. O que acham? Não temos Estado Islâmico, mas terrorismo contra as mulheres é aqui. Cultural, sim, cultural. Ainda bato na tecla de que a publicidade brasileira deveria ser alvo de olhares profundos da Lei Maria da Penha, pois boa parte dela coloca o ideal de mulher-coisa, mulher-naco-de-carne, mulher-bunda e por aí vai nas propagandas de certos produtos. Meninos são ensinados desde pequenos a dizer ofensas às mulheres na rua como prova de masculinidade. Quem é mulher sabe.
E o péssimo exemplo vem de cima. Quem vai esquecer a frase pessimamente célebre do deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF, coronel da reserva na PM da capital nacional), para a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ)? "Bate como homem, tem que apanhar como homem também". E não foi dissimulado, foi no plenário da Câmara dos Deputados, a casa dos legisladores brasileiros. Legisladores! Nobres e instruídos legisladores da nação! Se lá não se tem vergonha de assumir ser um tipo assim, o que esperar dos ignorantes anônimos, possuídos de covardia ou feridos no seu instinto de posse, aí pelas ruas das cidades?
