Devo ter usado dezenas, senão centenas, de vezes na minha vida a famosa frase do jornalista, escritor e pensador brasileiro (e gaúcho de Rio Grande) Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé, pioneiro do humor político no país: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”. E quantas vezes lembrei desta frase justamente para desdizê-la. Mas esta ideia é derrubada pela crença hindu que explica a magia que escapa à lógica e faz emergir, justamente dentre águas sujas, turvas e lamacentas, a flor de lótus, talvez a mais bela entre as belas criações deste universo, para eles um símbolo da criação. Que nasce em um distanciamento resoluto que ignora tudo ao seu redor, sem se permitir contaminar e sequer sujar pelas águas putrefatas ao seu redor, “e vem ao mundo para ser o que quer ser, sem se importar com o que a rodeia”. Como a beleza interior de cada ser humano. Que pode vencer.
No final da manhã da última terça-feira, policiais militares do 15<SC120,176> BPM, em Canoas, chegaram a pensar que dariam mais um duro golpe no tráfico de drogas. Outro, entre tantos que a Brigada Militar tem dado nos últimos tempos, para alegria da população em geral e desespero de criminosos, desonestos, e seus simpatizantes, ou defensores, ou aliados. Porque esta era a denúncia da comunidade à Brigada: um homem estaria enterrando drogas no seu pátio. Rapidamente a BM foi até o local e flagrou o homem fechando o buraco que recém cavara. Com a mesma pá usada pelo dito cujo, removeram a terra para descobrir o que ele escondera. Para espanto dos policiais, e consternação, não era nenhum pacote de entorpecentes, mas uma pequena cadelinha, com uma corda no pescoço, que, muito mal e ferida, ainda respirava. Os policiais prenderam o sujeito na hora e correram com o pobre animalzinho para um hospital veterinário. E ela, por mais um desses toques dados pela mão misteriosa da compaixão e da esperança, que volta e meia ainda nos apresenta a possível vitória do bem contra o mal, sobreviveu. E se recuperou bem, conquistando a todos no hospital.
Sei que já contei histórias semelhantes aqui na coluna, nestes mais de 12 anos em que nos encontramos todo final de semana. Mas o bem merece replay. Hope, esperança em inglês, foi o novo nome recebido pela cadelinha, que agora tem novo pai adotivo, o policial militar que a salvou. Ela é como a lótus que vence a sujeira ao seu redor, a crueldade e covardia de um ser nada humano para, nas mãos do seu salvador e agora protetor, iniciar uma nova vida. Talvez o que a flor de lótus queria mostrar a todos nós é que por mais que exista o breu, sempre haverá uma luz disposta a brilhar e a te conduzir para algum lugar melhor. Sempre haverá o lado bom e ele estará pronto para te receber. O gesto desse policial militar não vai ganhar tanta repercussão quanto um erro infelizmente cometido por um colega dele. Mas são esses gestos que nos fazem ver que há uma beleza triunfante do bem em cada mar de lama que se apresenta ao nosso redor. E cada uma dessas luzes é a esperança de um mundo melhor que sobrevive. Surpreendente, desaforada, corajosa e bela.
