Oscar Bessi

Humor - Os Baita e o Dia do Homem

Os Baita e o Dia do Homem

Charge: Vêrsa



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já era noite quando Adauras entrou no Boteco do Ju - que fica entre o cemitério e alguma enchente sem rio dessas cidades de hoje em dia, quando não se sabe de onde sai mais coisa estranha, se de lá ou de cá - e pediu uma coca-cola. É. Coca-cola. Adauras é um taura eclético. Toma refri, masca chiclete e prefere hamburguer a carreteiro de charque, além da única bombacha cotton for fitness fabricada até hoje. Mas é neto do Véio. E o Véio é o Véio. Até o minuano o respeita. Daí, ninguém contradiz o neto dele. E Adauras já ia pedir um canudinho quando viu Golias, o Baita da bombacha (e da perna) miúda, debruçado no balcão. Cara de cusco que caiu da mudança.

- Que houve, chê?

- Pôs... Sabe que dia é hoje?

- Quarta.

- Dia do hôme! Dia do hôme! - berrou Golias, exasperado. E virou seu copo de canha num gole só (o copo era pequeno), espalhando gotículas (nada sensuais) pelo bigode arrepiado. Vendo que o outro já estava pra lá de Maçambará, Adauras perguntou com voz macia, tentando acalmá-lo.

- Bah. Mas o que é que tem? O que te aconteceu?

- É isso. Nada me aconteceu! - Golias virou outro copo que o Ju, o dono do Boteco do Ju, lhe serviu a contragosto, porque ali naquele corpo tudo, principalmente o trago, era fiado e sem juro (nem um "juro que te pago", pra dar esperança) - Ninguém me deu os parabéns, ô animal! NINGUÉM!

Adauras tentou entender o sentido da frustração. Golias, apesar de ser aquele guasca em versão econômica, era metido a conquistador. Quebrava até umas regras baitassexuais, como usar perfume e decorar poesia. "Depois, no Dia da Mulher, quero ver essas zinhas aí me pedindo flor", resmungou.

- Essa frase eu li no facebook.

Golias o encarou com uma cara de quem entendeu lhufas.

- Vai ver elas não te enxergaram, vivente!

Falou e se arrependeu, o Adauras. Nem deu tempo de explicar que não estava brincando com a discreta altura do amigo. Olhos vermelhos de pinga, Golias largou o copo, sacou o facão, empurrou uma cadeira (que girou, girou e não caiu, por essas coisas da física sobre força e altura e etc.) e chamou o outro pro embate. O Ju, do Boteco do Ju, que não era bobo nem nada - e ainda morava ao lado do cemitério -, pressentiu a escaramuça e lembrou que precisava ver o estoque de torresmo. Mas Adauras, mais ligeiro que tainha de açude, viu um vasito de flor no alto da prateleira e deu um salto. Pegou o vaso. E, quando o outro brandiu o facão no ar, pronto para lhe acertar a paleta, tirou uma rosa. Cor-de-rosa. E ofereceu a Golias.

- Tó. Feliz dia do hôme.

Golias foi baixando o braço, baixando, baixando. Os olhos turvos - emoção? Ou pinga mesmo?- Largou o três-listras, abriu os braços miúdos e deu um baita abraço em Adauras. Demorado feito chimarrão de comadre. Depois anunciou, emocionado, "bota essa grapette do guri na minha conta, ô bagual! Bamo que bamo comemorar o dia do hôme!".

O Ju, pensando nada entre torresmos, fez que não ouviu.