Oscar Bessi

Humor - Os Baita e o Livro de Colorir

Os Baita e o Livro de Colorir


crônica

Participação especial do premiado chargista gaúcho Vêrsa, criador dos Baita em imagens.

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Xiru torceu o beiço. Olhou o Véio Gerônimo, guru máximo dos Baita - ou Baitassexuais, uma turma de gaudérios que, sem preconceito às demais correntes filosóficas de moda e etc., defende a sobrevivência do belo mais bruto do masculino ortodoxo, como não ir à instituto de beleza depilar as ventas (ou qualquer outra coisa) e nem ver novela dos oito, por exemplo. O Véio, sentado num cepo no canto do galpão, fumava um paiêro e olhava o nada. Nem aí. Ele e o seu cusco caramelado, acaranchado aos seus pés. Adauras insistiu, era uma boa ideia de investimento. Venderiam parte do gado e, com os pila, publicariam um livro para colorir. Ficariam ricos.

- Livro pra colorir? Mas isso é côsa pra piá de colégio! - protestou Taborda, o Baita que aborda.

- Pra adulto. É terapêutico. - insistiu Adauras. - E todo mundo precisa de terapia, hoje.

- Eu preciso é dumas nicra na guaiaca. - resmungou Golias, o da bombacha miúda.

- E eu de uma canha. - sorriu Tadeu, o cuião vazio, sem mate.

- É, chê. A côsa tá braba. - voltou a falar o Xiru, dono do galpão, fundador do grupo e patrocinador da erva e das rapaduras pra mascar detardezinha - Já penhorei a gamela e uns dois espetos. Crise tá mais feia que indigestão de torresmo. De repente, é hora de ouvir as maluquices do guri, aí.

Adauras sorriu. Era o mais eclético do grupo, usava umas bombachas mais justas, camiseta dos Beatles e óculos de gatinho. Os outros torciam o bigode - que ele era o único a não usar -, mas, enfim, era o neto do Véio. E o Véio era o Véio. Um mistério imortal (nada a ver com o Grêmio, por favor). Dizem que era vivo já nos idos da Revolução de 30. Vá saber. Ninguém perguntava. E ele nunca dizia.

Adauras explicou o plano: se "O Jardim Secreto" vendeu tanto, no mundo inteiro, eles lançariam "A Macega Macanuda". Ou "O Capão Caborteiro". Só desenho guasca para colorir. Umas figueiras, uns boi, uns guaipeca, uns graxaim, umas anta, uns estropiado da guerra, uns quero-quero acolherado... E muita coxilha! De brinde, um pedacito de carvão, pra ajudar na lida artística. Golias, Taborda, Tadeu e Simão (o brigadiano de Pelotas, que ia lá só nas horas de folga) remexeram os bigodes e olharam o Xiru. Que olhou o Véio. Que olhou o cusco caramelado. Que olhou pra todos no galpão, olhou pra frente e se levantou no rumo da estrada.

- É. A côsa tá feia. - resmungou o Xiru, entendendo o recado - Bamo lá pensar.

- Bamo que bamo! - bradaram os Baita. E juntaram os pilas.

E quando o cusco chegou na porta, o Ju, do boteco do Ju, já sabia quem vinha atrás. "Ih, a côsa tá feia!", pensou. E preparou os copos.