Oscar Bessi

Infância violada

O horror se multiplica quando percebemos que estamos diante de uma sociedade adoecida que permite que meninos aprendam, cedo demais, o idioma da crueldade.

A infância deveria ser território sagrado. Um lugar onde o maior drama da vida fosse uma briga por um brinquedo, uma abelha no recreio da escola ou a espera interminável pela hora do sorvete no domingo. Porém, dois meninos, de sete e dez anos, carregarão para sempre nas memórias o peso de algo que não deveriam sequer saber que existe.

O que torna tudo ainda mais asqueroso não é apenas a crueldade do ato, a violação coletiva, a idade das vítimas ou a confiança que tinham nos agressores. É a arquitetura fria do crime, a deliberada escolha de usar a inocência como instrumento, o detalhe calculado da pipa como isca. Alguém pensou nisso. Alguém, com plena consciência, planejou. E, sem demonstrar arrependimento, ainda divulgou ao mundo, em redes sociais, o seu ato macabro, exibindo o sofrimento dos pequenos como troféu.

O horror se multiplica quando percebemos que não estamos apenas diante de monstros isolados, mas de uma sociedade adoecida que permite que meninos aprendam, cedo demais, o idioma da crueldade. Nenhum jovem nasce sabendo praticar tamanha violência. Alguém os iniciou nessa linguagem; alguém normalizou o inaceitável. Alguém abdicou da responsabilidade sagrada de proteger para se tornar o instrutor da barbárie nessa escola torpe de algozes.

HUMANIDADE FRACASSA
Quando a violência escolhe crianças como vítimas e adolescentes se divertem no papel de agressores, não é apenas um crime a encorpar estatísticas frias. É a humanidade inteira que fracassa, que parece ter perdido o fio da meada, soltando-se da ética como uma pipa sem rabiola, entregue ao caos das correntes mais sombrias.

Precisamos chorar por esses meninos, sim, mas precisamos também sentir a vergonha que nos cabe por permitirmos um mundo onde até o céu dos nossos sonhos se tornou um lugar perigoso. Por isso, peço ao leitor, neste instante, que não passe os olhos depressa por este texto. Que pare. Pense. Reflita. Que sinta o desconforto de quem falhou antes mesmo de este crime acontecer. O caos está aí, ao nosso redor, em nossas telas, nas diversas formas de estupidez e intolerância, cercando nossos filhos e recebendo "likes".

E onde estamos nós, enquanto as nossas crianças caminham em direção ao impensável? A resposta mais honesta é também a mais difícil: estamos desatentos. Estamos abduzidos por nossos umbigos, reféns de smartphones. Estamos, quase todos e quase sempre, olhando para o outro lado. Fingindo não ver.