Oscar Bessi

Inverno na alma

O setembro amarelo traz esse alerta necessário de como podemos oferecer luz e calor aos que precisam.

O rock gaúcho tem poetas ícones do rock nacional. Mas alguns talvez ainda não conheçam Daniel Pigozzo, o incrível letrista da banda Psycho Rockers (podem procurar nas plataformas musicais e redes sociais). Um sujeito que admiro demais como pessoa e artista. É dele a música “Inverno na alma”, que volta e meia escuto por questões muito minhas. Alguns amigos sabem, numa fase recente da vida, me deparei com uma crise de saúde mental que quase me derrubou. Tudo ficou muito difícil. E uma das vozes mais amigas e compreensivas, que me marcou muito ao ligar no mesmo instante que soube (eu mandei uma mensagem muito envergonhada, avisando que não conseguiria escrever a coluna por não estar bem), para prestar seu apoio e me pedir que não sentisse medo e nem culpa, mas procurasse ajuda, tratamento e cura, foi o nosso querido diretor de Redação do Correio do Povo, Telmo Flor. Há coisas que são especiais na vida. E só as palavras dele, lembro bem, alcançaram o que mil remédios talvez não conseguissem. Porque o mais comum, no trabalho ou nas famílias, é incompreensão, preconceito e cobrança. Quando perceber, entender e apoiar pode mudar muitas histórias.

Outro mês chega ao fim, mas que não se encerre no calendário a mensagem essencial do setembro amarelo. Pigozzo abre “Inverno na alma” com uma espécie de desabafo: “Preciso de ajuda/ Pode me ajudar? Me dê sua mão/ Quero levantar/ Onde você estava?/ Onde estava eu?”. O poder vocal e instrumental da banda dá aquele tom dramático necessário, com bons elementos de um punk rock (para quem curte, muito a ver com protesto pessoal ou social). É verdade que cada texto oferece ao leitor ou ouvinte a interpretação que o seu próprio coração pede. Particularmente, me perguntei: quantos querem gritar que precisam de ajuda e não conseguem? As mortes por suicídio são muitas no Brasil. E aos egoístas que argumentam que é problema individual, não coletivo, pesquisem um pouco e vejam quantos, ao tomar a trágica decisão de tirar a própria vida, levam outros consigo. Como o piloto da Egypit Air, em 1999. Ou o invasor armado de uma escola. E para evitar isto, o problema estava o tempo todo ali, ao alcance de uma atenção.

“Sei que sozinho/ É difícil de lutar/ Mas não penso em desistir/ Não desisto de tentar”, canta Daniel Pigozzo. Ele tem outra música que adoro, chamada “Becos escuros”. Gosto das temáticas densas. O saudoso Scliar me disse uma vez que tínhamos em comum, na medicina (área dele) e segurança pública (minha), isso de lidar com a vida e a morte, com dores humanas, o que talvez nos desse a chance de oferecer uma literatura que dissesse algo às pessoas. Outra gratidão minha ao Telmo: a chance de, com uma coluna na página policial deste jornal gigante em tamanho e história, oferecer temas que remetam os leitores à reflexão. E a paz ao nosso redor passa por refletir, entender, aproximar, estender a mão. Aquecer almas perdidas em seu inverno interior. O setembro amarelo traz esse alerta necessário de como podemos oferecer luz e calor aos que precisam. Resgatar os que estão presos em becos escuros tão seus. Diz Pigozzo: “Olhe em meus olhos, algo pode ver? Olhe em meus olhos, minha alma pode ter!”. É isto. E, se precisar, por favor, peça ajuda.