Oscar Bessi

Investir na prevenção é poupar

A matemática financeira pública é imediatista. Não costuma calcular o amanhã e tem dificuldade em enxergar colheitas. Culpa da fugacidade e imediatismo dos mandatos políticos, talvez. Mas há questões urgentes, onde o tempo é secundário e as ações precisam ter foco no amanhã, ou o hoje será sempre essa condenação à inércia e deterioração gradual inevitável. Em solo gaúcho, andamos cansados das notícias brutais. Policiais mortos. Civis mortos. Meninos no crime. O ser humano transformado em coisa descartável. Até quando?

A Associação Gaúcha de Escritores (AGES) vem em campanha de vozes inquietas com a parada de programas estaduais como o "Autor Presente" e o "Lendo pra Valer". Caio Riter, atual presidente é, como Dilan Camargo - patrono da 61ª Feira do Livro de Porto Alegre - e tantos outros escritores gaúchos, um semeador de amanhãs. Em nova carta, a AGES, junto com a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ) do RS, manifesta seu desconforto com o final destes programas. A resposta não veio de forma oficial, mas dá um alento: ainda em 2015, algumas escolas receberão outra vez o Autor Presente. Há esperança? Só não pode haver silêncio. Outras belas notícias vieram no Encontro Gaúcho de Escritores, na 31ª Feira do Livro de Caxias do Sul, com Volnei Canonica, do Ministério da Cultura. A crise colocou um freio no PNBE, um dos maiores programas de compra de livros para bibliotecas escolares do mundo. Sorte que as compras dos anos anteriores já abasteceram muitas escolas do país com ótimos livros. E livro não tem prazo de validade. O PNBE será retomado com projetos de mediação da leitura e incremento das bibliotecas, seguindo a tendência de sucesso na Colômbia. Agora é torcer para que não haja corte no Sistema "S", pois o SESC, por exemplo, é mola mestra de quase todas as maravilhas culturais desejadas ao povo por prefeituras país afora.

O livro muda vidas. Destinos. Não falo baseado em suposições ou números, mas por viver a violência cotidiana na profissão e, como escritor, ter a sorte de conhecer escolas e feiras do livro diversas. Vejo o potencial da leitura e seus milagres. Eles nascem no heroísmo e ideal de tantos professores que acumulam, em suas sobrecargas de horário, o incentivo à leitura e à criação literária. Levar livros e autores a estas escolas não é gasto. Só na ótica imediatista, de visão curta. Ao contrário: é economizar. O ser humano seduzido pelo ler, pensar, sentir, conhecer e respeitar o outro é menos um no cárcere. Menos vítimas a tratar ou indenizar. Investir hoje na educação e na cultura, como prevenção possível, é economizar amanhã nos aparatos de guerra do socorro urgente. E nós precisamos muito de um amanhã. Pra ontem.