Oscar Bessi

Leão entre Anjos e Lobos 1

Capítulo 1

Permitiu-se fechar os olhos por um instante e pensou que, no fim das contas, o melhor de tudo é esta sensação de chegar ao fim. Sempre. Ela gostava de quando o relógio rondava a meia-noite, ainda que os dias inteiros se arrastassem pesados, estreitos, sufocantes. Amava descer do ônibus na volta da faculdade, abraçar seus livros em meio ao quase breu da rua de iluminação esquálida e senti-los contra os seios, a amparar o queixo. Os pés mais lentos na contagem regressiva para estar em casa, sob o chuveiro, sob os lençóis, sob o mundo real. Tinha o costume de, naqueles instantes onde os passos relaxavam, deixar os lábios tocarem as capas duras dos livros como se fossem outros lábios, ou um rosto.

(O rosto. A mão. O corpo dele. O corpo que queria perto de si e lhe era proibido. Proibido por quem, mesmo? Por quê?)

Gostava de vagar entre sonhos inquietos, deixar a língua a invadir as páginas como os preâmbulos do amor. Já se envergonhara ao se saber observada beijando seus livros. Mordendo-os. Mas era como se estivesse ali, naquele abraço, o homem perfeito, o companheiro que não tivera a sorte de encontrar, o seu homem.

Não tinha sorte. Ponto final.

Lembrou com desprazer a mensagem recebida no final da tarde. Surpresa e irritação. Pensou em apagar, desistiu. Pior: releu. Uma, duas, vinte vezes. Não se concentrou na aula e nem conseguiu cochilar no ônibus.

Apressou o passo de repente, queria chegar logo em casa, subir os seis lances de escada pulando os degraus de dois em dois, atirar os livros sobre o sofá, a bolsa, arrancar a roupa, mergulhar no chuveiro. Pensar se respondia ou apagava aquela idiotice.

Estranho...

Há quanto tempo não se importava mais se ele estaria ou não em casa?

Ouviu alguém chamar. Teve impressão de que era uma voz conhecida, virou-se.

- Mas o que é isto? - murmurou, surpresa.