Lento, o carro branco veio da Avenida Ipiranga. Talvez do Bourbon Sopping, ele pensou, de alguma das sessões de cinema que iam até àquela hora. O estranho era a velocidade muita mais baixa do que o costumeiro naquele trecho em frente ao seu prédio. Dobrou à esquerda na Valparaíso e parou em seguida. Algum namoradinho cheio de romance, sorriu, enquanto acendia outro cigarro. Ele gostava de ser um namoradinho cheio de romance, mesmo que na sua época o risco de ser assaltado já existisse, pelo menos no medo popular, ainda que sem a banalidade, ou o bombardeio midiático de hoje. Namorar sem correr algum risco nunca teve graça.
O motorista do carro engatou a ré, como se tivesse dobrado a esquina por engano e precisasse retornar à Guilherme Alves. Parou, aguardou alguns segundos, voltou a desaparecer na Valparaíso. Não era algo normal. Gol antigo, bolinha, vidros escuros e um adesivo de careta, ou algo parecido, no vidro traseiro. Ficou atento. Conferiu se suas luzes estavam apagadas, não queria ser visto. Sim, estavam. Como sempre. Gostava de observar o mundo lá fora camuflado de noite em seu cantinho.
Pegou o isqueiro sobre a mureta, contemplou a chama atingir o cigarrinho sabor canela com menta e assoprou forte a fumaça, até vê-la se perder na direção do andar de cima. Àquela hora a velha chata do apartamento de cima não reclamaria, como costumava fazer o dia inteiro, forçando tosses e resmungando palavrões contra os fumantes do mundo a cada instante em que ele decidia fumar ali, na sacada.
Não viu mais o carro, porque o seu prédio não era o da esquina, mas sim o primeiro depois dela na Guilherme Alves. Porém, via que o Gol permanecia ali, na Valparaíso, a poucos metros. Via as luzes vermelhas do freio se dissipar aos poucos no asfalto da esquina. Devia ter estacionado ao lado de um longo muro de tijolos, todo pintado de laranja e com anúncios de um site de locação de veículos. Demorou alguns minutos até o motorista desligar o carro e apagar os faróis. Ficou atento. Ninguém desceu.
Não era carro de morador, pensou. Pelo menos não os que costumava ver por ali àquela hora. Casal querendo uma trepada com adrenalina? Talvez. Sexo não tem hora nem lugar para acontecer. Ainda mais perto de um shopping com cinema.
Talvez fosse nada além de algum sujeito à espera de sua namoradinha, espoa, ou amante.
Ou quem sabe fosse até uma campana.
Jogou a fumaça outra vez para o alto e olhou o céu. Sem nuvens, mas de raras estrelas.
Se havia algo de que tinha saudade, era ver as noites como um mero encerrar dos dias. Algo que perdera desde que deixara a vida no interior e se estabelecera em Porto Alegre, naquele já difuso 1974. Sempre teve dificuldades para dormir, desde jovem. Gostava de observar a noite. Pensar em nada, ou se permitir levar pela deliciosa desordem de pensamentos que a solidão oferece, sem preocupações, projetos, cronologias, sonhos. Apenas olhar o céu. O nada.
Lá fora, na casa dos pais, ele olhava as estrelas, a tapera do avô logo abaixo da colina, a mãe o chamando para jantar até desistir, o pai dando uma última espiada no galinheiro, na estrebaria onde duas vacas e seus bezerros submetiam-se à escravidão velada, no cavalo que era uma sombra atrás do galpão, na pocilga, na porteira rente à estrada, nos cães. Naquelas noites sem sonho, ele sonhava com a cidade, com a partida. Não queria para si uma vida de prisões eternas.
Foi só o conseguiu.
Agora, aposentado e sozinho, sentia-se invisível naquele apartamento perdido no bairro Jardim Botânico, mais um bairro entre tantos bairros cinzentos de milhares de prédios de Porto Alegre, permeados de um verde cada vez mais frágil. Caixinhas amontoadas de qualquer jeito, tomadas de formigas humanas aprisionadas, asfixiadas, sem vida decente.
Pelo menos seu apartamento tinha sacada. Minúscula, mal cabia a cadeira de abrir. Mas era uma sacada. Dali observava a noite, alguma estrela – é incrível, elas somem nas cidades grandes, como se gostassem apenas daquele céu plácido do campo -, as paredes vizinhas sem muitas variações de cores, as janelas expostas de intimidades, as ruas.
O que mais gostava de olhar: as ruas.
O ônibus universitário parou, como em todas as terças e quintas, na esquina, vindo da Avenida Ipiranga rumo à Felizardo, para depois ingressar na Salvador França até sair do bairro. Desembarcou a moça esguia que desembarcava naquelas duas noites, os cabelos longos sempre presos num coque, ela e sua bolsa pequena, seus livros colados ao peito. Caminhava de um jeito levemente encurvado como se fosse, assim como ele, oriunda de qualquer zona rural do estado. As pessoas do campo têm aquele jeito encurvado de caminhar. Jeito castigado de sol e temporal, dizia seu pai. Jeito de não ter mais jeito.
Logo adiante havia uma parada de ônibus para as linhas comuns, mas esses transportes universitários nunca obedecem sinalizações. Igual aos carros-fortes. Por segurança não era, pois quem fosse assaltado naquele ponto o seria na esquina ou dez metros adiante, não mudaria em nada. A parca iluminação era a mesma. Ela atravessou, como de praxe, a Guilherme Alves e entrou na quadra à esquerda da Valparaíso. Onde o gol havia estacionado. Mas não tinha a ver com ela, nunca viu alguém que a esperasse. Devia ser sozinha feito ele. Também não sabia onde ela morava, mas devia ser ali por perto. Que idade teria, uns trinta anos?
Suspirou uma solidariedade muda. Soprou a fumaça do cigarro contra a noite.
Eram todos noites. Todos.
Instantes depois, quando a fumaça ainda se dissipava em torno de si, ouviu o tiro.
E um carro cantar pneu.
O gol? A moça?
Amassou o cigarro no cinzeiro. Levantou com alguma dificuldade por conta da dor na coluna, fechou a cadeira e entrou. Fechou a grade e a porta da varanda.
Aqui, o melhor a fazer é ficar invisível. E cego, surdo e mudo, aconselhou o seu primeiro chefe, décadas antes.
