Oscar Bessi

Leão entre Anjos e Lobos 3

 

Clique na imagem para lericone o Capítulo 2

 

 

 

"Procuro a solidão como o ar procura o chão".

Até percebeu o tremor no bolso da calça e lembrou, podia ser o celular. Mas foi pensamento tão rápido, efêmero, descartável, que nem se deu conta do que ele significava e o apagou meio instante depois.

Edgar Leão sentiu uma vontade irrefreável de ir ao banheiro, mas queria terminar de ouvir. "Esconderijo". E o caneco de chope ainda estava pela metade. De toda sorte, espiou o caminho entre jovens em pé, casais, mesas tomadas de gente que levava o outro lado do bar, onde a porta com a plaqueta de "cavalheiros" seguia fechada. Desanimou.

"Como a chuva só desmancha pensamento sem razão".

A moça que cantava, com suas deliciosas pernas de fora cruzadas sob o violão, seus cabelos crespos soltos, seus olhos castanhos na cor do mel e aquele batom escuro (preto?, marrom?, roxo?) que o fascinava, talvez fosse até mais bonita que Ana Cañas. O que sempre julgou improvável, apaixonado que era pela cantora paulista. Mas aquela menina tinha, para piorar seu estado de êxtase e embriaguez, a voz muito parecida com a dela, outra improbabilidade. Ou não era nada disso e tudo não passava de só o efeito do quarto caneco a trazer, além daquela necessidade maldita de ir ao banheiro, qualquer insana vontade de chorar.

Queria Janete. Ali.

"Pensamento sem razão".

Talvez só quisesse ter alguém, pelo menos.

"Calma".

(Calma, sim, é isso. Será?)

"Pra contar nos dedos. Beijo... Pra ficar aqui. Teto para desabar. Você para construir".

Essa maldita música tocava toda hora nas rádios lá, naqueles dias que agora pareciam tão distantes, quando conheceu Janete. Não sabia ao certo, nunca foi muito de assistir televisão, mas fazia parte da trilha sonora de uma novela. Aí tocava, muito, a todo instante. Como no primeiro encontro deles, no carro, no meio do nada entre a multidão. Janete sorriu daquele jeito, olhos e lábios, pediu para que aumentasse o volume já levando a mão esquerda ao botão do rádio, nem aí para o que ele respondesse, e a voz de Ana Cañas preencheu o carro como se ela também estivesse ali, entre eles. Janete fechou os olhos. Cantou junto e pegou a sua mão.

Depois, beijo.

Depois ou no mesmo instante.

Leão se surpreendeu de olhos fechados. Passou as mãos entre os cabelos, incomodado, como se alguém tivesse percebido. Janete, ô Janete!

O celular vibrou outra vez no bolso da camisa. Apressou-se em conferir quem ligava, só podia ser ela. Olhou o número no identificador de chamadas.

Quem seria?

Ninguém, fora algum cliente e o Simão, seu sócio no escritório, ligaria àquela hora. E os clientes andavam escassos. Quinta-feira, mais de uma da manhã? Quando estavam juntos, Janete costumava ligar exatamente nestes horários. Ainda mais se estivesse trabalhando: queria saber onde ele andava, se estava em casa, se não estava por aí.

- Por que tanto ciúme? - Ele estava atirado no sofá, dividido entre ler um livro de bolso com aventuras do Comissário Maigret ou assistir ao videotape de uma partida de futebol, Brasil de Pelotas e Inter, talvez pelo campeonato gaúcho. Não fazia nem uma coisa nem outra, pensava em Janete. E ela ligou.

- Quem disse que tenho ciúme?

Ouviu as risadas masculinas bem próximas dela. Ele sim, tinha ciúme. De cinco homens jovens, bonitos e sarados, vestindo aqueles uniformes camuflados com boinas prestas e perdidos com a sua namorada por quaisquer cantos escuros de Porto Alegre. Janete era sargento da Brigada Militar e comandava uma patrulha de operações especais. Sim, ele tinha muito ciúme. Ainda mais do motorista. Tinha certeza que todos, ali naquela equipe, queriam levar sua comandante para a cama. Mas o tal soldado Della Costa, um italiano gigante de cabelos pretos e olhos azuis que deixava as meninas da delegacia piradas, sempre que aparecia por lá com algum flagrante, queria mais que os outros. Leão via nos olhos dele.

- Não tem?

- Não. - ela sussurrou um miado.

- Então por que me liga a essa hora?

- E se tiver... Posso?

Ele sorriu.

- Deve.

- Tenho saudade.

- Sério?

- Aham.

- Larga isso aí e vem pra cá.

- Não posso. Tu sabes.

- Inventa um enjoo. Diz que, sei lá, acha que está grávida. Depois a gente dá um jeito de transformar a mentira em verdade.

Ela gargalhou.

- Doido!

- Por ti.

Ela riu alto e o chamou de bobo, naquele mesmo tom de quem chama de meu bem, delícia, vem, quero ter você agora. Leão pode vê-la sorrir do outro lado da linha. Como ouviu os colegas de patrulha fazerem piadas e um coro de "óin".

- Tá, vou desligar. - ela resmungou.

- A noite está calma?

- Só assaltaram um posto de gasolina. A gente ainda está fazendo buscas.

- Se cuida.

- Edgar...

- Hum?

- Vai mesmo largar a polícia?

"Procuro esconderijo. Encontro um novo abrigo. Como a arte do seu jeito. E tudo faz sentido".

Sair ou não da polícia foi a primeira e a última discussão entre os dois.

Conferiu o celular, número desconhecido. Não era Janete. Nunca mais seria Janete.

Meia hora depois, a moça encerrou a música - com Leão entre lágrimas - e anunciou um intervalo. O som mecânico entrou trazendo um bate-estaca qualquer, música eletrônica americana (achava todas iguais) e da moda. Ele foi até o banheiro e conseguiu urinar depois de muitos empurrões e espera na fila.

Amparou o braço esquerdo na parede de azulejos, abriu o zíper da calça com gestos lentos, viu no espelho os olhos vermelhos e pensou, consigo, se estava bêbado. Não. Era muito pouco para que estivesse fora de si.

Os remédios. Tinha parado há quanto tempo?

Voltou, viu que sua mesa já estava ocupada por um bando e ficou pensando nos grandes equívocos da sua vida: a relação com o pai, o ingresso na Polícia Civil como inspetor, a paixão descontrolada por Janete. Agora, aquela maldita depressão.

- Não misture com álcool. - advertiu o psiquiatra.

Pediu mais um chope ao garçom. À merda com os remédios!

O celular voltou a vibrar no bolso da camisa. Uma vibração curta, de mensagem. Pegou o aparelho e teve dificuldade em desbloquear a tela inicial, errou a senha duas vezes. Apertou no ícone dos torpedos.

"Meu amigo, minha mulher foi assassinada. Gostaria que me acompanhasse à delegacia, não sei o que fazer. Por favor! Diga onde está e te pego. Pago bem."

Viu que a cantora travava uma conversa animada com uma loira tatuada no canto do bar. Os olhares das duas entregavam que algo, ali rolaria, ou rolava há pouco. Ainda eram olhos de paixão. Chamou o garçom, cancelou o chope que recém pedira e foi pagar a conta.

Releu a última frase do torpedo.

"Pago bem".

Enquanto o sujeito passava seu cartão na maquininha, digitou dizendo onde estava.