Na Saturnino de Brito, o sujeito deu sinal de que dobraria à direita e ignorou o sinal vermelho. Fungou pela quarta ou quinta vez. Leão olhou, na esquina, o barranco de gramas verdes na calçada oposta e teve uma lembrança desconfortável. Acidente de trânsito. O fusca do pai, uma carroça e um ônibus. A mãe ferida e ele chorando. Gritos. Apitos. Sirene. Quantos anos antes? Trinta, talvez. Na lembrança, nuvens de poeira, metal e dor sob um dia cinza. Nada de verdes. Aquele gramado estava ali?
Se aquela esquina ainda é confusa, mesmo com as ruas alargas, na época parecia bem mais. E que digam à vontade que hoje se vive o absurdo no trânsito, mas desde criança ele sempre achou que havia mais carros do que o necessário nas ruas. Se pudesse, viveria na madrugada, onde o silêncio pode ser encontrado, onde os passos eram mais livres. Ainda que em poucos lugares.
Ingressaram na Protásio sob o mesmo silêncio mastigado, denso, insalubre de quando Alfredo o apanhou na porta do pub. O detetive pensou em que raio de lugar ele passava o dia com um carrão daqueles. Na roça?
- Você deve estar pensando que matei a minha mulher. - o outro finalmente falou, enquanto o carro deslizava pela reta de asfalto, àquela hora da madrugada sem qualquer tranqueira.
Leão deu de ombros.
- Não estou pensando nada, por enquanto.
Mentira. Estava pensando um monte de bobagem, e na maldita hora em que resolver retornar o recado, fulo da vida por ter saído do bar, do chope, dos devaneios com Janete e da voz suave daquela menina que não era Ana Cañas, mas até podia ser, enfim, se quisesse.
- Não mesmo?
- Deveria?
Alfredo parou no semáforo.
- Vai parar? A esta hora? - protestou Leão.
- Hein?
- Sabe como anda Porto Alegre...
- Sei. Desculpe, estava com a cabeça longe. Esta situação.
- Tudo bem.
Quase trezentos metros de silêncio depois, o motorista deu um soco no volante e parou o carro.
- Eu não suporto delegacia, Leão!
- Normal. Nem os policiais morrem de amores por aquilo lá, pode ter certeza.
Alfredo encarou o detetive particular ao seu lado. Respirou fundo. Passou a mão pelo rosto, como que para afugentar algum cansaço.
- Isto não podia ter acontecido hoje.
Leão pensou em dizer que, já que era a sua esposa que havia sido assassinada, o melhor era dizer que não devia ter acontecido jamais. Mas ele era apenas um detetive. Não advogado, muito menos psicólogo. Não tinha que falar coisa nenhuma.
A não ser, claro, perguntar que tipo de serviço afinal Alfredo queria que fizesse. Foi o que perguntou.
- Lembra de mim? - ele o encarou outra vez.
Leão quase sorriu.
- Não.
- Por que veio?
O detetive apanhou o celular no bolso. Destravou a tela de proteção, abriu o aplicativo de mensagens e mostrou o texto ao homem ao seu lado.
- Paga bem, não é? Pois então. É só o que me interessa.
Leão guardou de volta o celular e sentiu uma súbita vontade de vomitar. Não, não havia bebido demais.
"Vai trabalhar para qualquer um. Tipos escrotos, mafiosos, traficantes, gente da pior espécie. Quem pagar te leva. Isto é igual pistolagem, sabia? Olha, não é esse o tipo de homem que eu quero ao meu lado". Janete gritou, na última vez em que pegou suas coisas e saiu, sem janta, sem vinho, sem sexo, sem adeus, sem nada. E sem ao menos bater a porta com força para que ele sepultasse, na explosão de sua partida, todo o maldito amor que aprendera a sentir com ela.
