Oscar Bessi

Leão entre Anjos e Lobos 4

Clique na imagem para lericone o Capítulo 3

 

 

 

Na Saturnino de Brito, o sujeito deu sinal de que dobraria à direita e ignorou o sinal vermelho. Fungou pela quarta ou quinta vez. Leão olhou, na esquina, o barranco de gramas verdes na calçada oposta e teve uma lembrança desconfortável. Acidente de trânsito. O fusca do pai, uma carroça e um ônibus. A mãe ferida e ele chorando. Gritos. Apitos. Sirene. Quantos anos antes? Trinta, talvez. Na lembrança, nuvens de poeira, metal e dor sob um dia cinza. Nada de verdes. Aquele gramado estava ali?

Se aquela esquina ainda é confusa, mesmo com as ruas alargas, na época parecia bem mais. E que digam à vontade que hoje se vive o absurdo no trânsito, mas desde criança ele sempre achou que havia mais carros do que o necessário nas ruas. Se pudesse, viveria na madrugada, onde o silêncio pode ser encontrado, onde os passos eram mais livres. Ainda que em poucos lugares.

Ingressaram na Protásio sob o mesmo silêncio mastigado, denso, insalubre de quando Alfredo o apanhou na porta do pub. O detetive pensou em que raio de lugar ele passava o dia com um carrão daqueles. Na roça?

- Você deve estar pensando que matei a minha mulher. - o outro finalmente falou, enquanto o carro deslizava pela reta de asfalto, àquela hora da madrugada sem qualquer tranqueira.

Leão deu de ombros.

- Não estou pensando nada, por enquanto.

Mentira. Estava pensando um monte de bobagem, e na maldita hora em que resolver retornar o recado, fulo da vida por ter saído do bar, do chope, dos devaneios com Janete e da voz suave daquela menina que não era Ana Cañas, mas até podia ser, enfim, se quisesse.

- Não mesmo?

- Deveria?

Alfredo parou no semáforo.

- Vai parar? A esta hora? - protestou Leão.

- Hein?

- Sabe como anda Porto Alegre...

- Sei. Desculpe, estava com a cabeça longe. Esta situação.

- Tudo bem.

Quase trezentos metros de silêncio depois, o motorista deu um soco no volante e parou o carro.

- Eu não suporto delegacia, Leão!

- Normal. Nem os policiais morrem de amores por aquilo lá, pode ter certeza.

Alfredo encarou o detetive particular ao seu lado. Respirou fundo. Passou a mão pelo rosto, como que para afugentar algum cansaço.

- Isto não podia ter acontecido hoje.

Leão pensou em dizer que, já que era a sua esposa que havia sido assassinada, o melhor era dizer que não devia ter acontecido jamais. Mas ele era apenas um detetive. Não advogado, muito menos psicólogo. Não tinha que falar coisa nenhuma.

A não ser, claro, perguntar que tipo de serviço afinal Alfredo queria que fizesse. Foi o que perguntou.

- Lembra de mim? - ele o encarou outra vez.

Leão quase sorriu.

- Não.

- Por que veio?

O detetive apanhou o celular no bolso. Destravou a tela de proteção, abriu o aplicativo de mensagens e mostrou o texto ao homem ao seu lado.

- Paga bem, não é? Pois então. É só o que me interessa.

Leão guardou de volta o celular e sentiu uma súbita vontade de vomitar. Não, não havia bebido demais.

"Vai trabalhar para qualquer um. Tipos escrotos, mafiosos, traficantes, gente da pior espécie. Quem pagar te leva. Isto é igual pistolagem, sabia? Olha, não é esse o tipo de homem que eu quero ao meu lado". Janete gritou, na última vez em que pegou suas coisas e saiu, sem janta, sem vinho, sem sexo, sem adeus, sem nada. E sem ao menos bater a porta com força para que ele sepultasse, na explosão de sua partida, todo o maldito amor que aprendera a sentir com ela.