Passava das onze da manhã e Leão sentiu os olhos arderem. Conhecia aquela sensação. Não chegava a ser bem sono, mas um desejo imenso e repentino de dormir. O que nunca conseguia. Não na plenitude do ato, por horas a fio, sem ao menos lembrar se sonhou ao acordar. O problema é que bastava entrar no apartamento, se jogar na cama e a vontade desaparecia como que por encanto. Há quantos anos tinha insônia? Uns dez. E o rivotril não surtia qualquer efeito.
Alfredo desligou o celular, onde discutia em voz alta com alguém sobre prazos de pagamentos e entregas. O rapaz de uniforme preto e avental marrom, com o símbolo da cafeteria, trouxe a bandeja com seus pedidos. Leão optou por uma torrada de atum e expresso duplo. Seu cliente preferiu pão de queijo e capuccino.
- Desculpe. Negócios. - Alfredo murmurou, digitando algo no telefone e guardando-o no bolso.
- É. Não se respeita nem a dor de um viúvo.
O outro o encarou, testa franzida.
- O que quis dizer com isso?
Leão não respondeu. Abriu um envelope de açúcar e o adicionou na xícara, mexeu seu café, provou um gole. Amava café. Talvez tanto quanto o chope.
- Gosto de tomar café aqui no Barra. É mais tranquilo, distante do meu bairro.
- Não sou muito fã de shopping.
- É um lugar seguro, pelo menos.
- Mas afinal, deu ou não depoimento? - Leão perguntou de forma ríspida. Não haviam permitido que ficasse na sala da delegado, ao lado de Alfredo. E este só fazia atender celular a manhã toda, mais para falar de negócios do que sobre a morte da sua mulher, portanto não sabia o que acontecera lá dentro. Já ele, Leão, tinha a mínima pretensão de passar o dia com aquele sujeito, ainda que o pagasse bem. Aliás, quanto mesmo?
- Informal.
- Então não deu depoimento.
- O delegado conversou comigo. Perguntou sobre a nossa vida, essas coisas. Se a Lúcia havia recebido ameaças.
- E?
- Ela é conselheira tutelar, pô. Óbvio que recebia ameaças. - ele sorveu um gole de café, olhou para os lados e corrigiu, num murmúrio - Era. Ela era conselheira tutelar.
Leão deixou seu olhar sobre Alfredo e acompanhou seus gestos sem sobressaltos, suas expressões iguais a quem acaba de perder um relógio, ou a caneta de estimação. Afinal de contas: a ficha não caiu, ele é um calhorda insensível ou tem culpa no cartório?
- O que devo saber, Alfredo?
- Não entendi.
- O que deve me contar e não contará à polícia?
O outro riu, nervoso.
- Não há nada além dos fatos. Minha mulher foi morta num assalto. Uma loucura, esta cidade está um caos. Não viu a imagem da câmera de segurança? Só levaram um celular. Mataram por um celular!
- Isto é o que a imprensa está dizendo.
- E o que deve ter sido. O que está na cara que aconteceu.
- Alfredo...
- Diga.
- Me chamou mesmo apenas para te acompanhar na delegacia?
- Foi. E te agradeço.
- Por quê eu?
- Sei lá. Teu desempenho aquele caso do notebook, lembra? Sou padrinho do guri. E sei que é ex-policial. Não me lembrei de mais ninguém, na hora, e como te disse, eu tenho pavor de delegacia. Sempre tive receio de entrar em uma.
- E o teu advogado?
- Tenho o da empresa. Acha que vou precisar dele?
- Tua mulher foi morta. Acho, até, que tens interesse que um advogado acompanhe o caso, não?
- É só mais um caso de assalto. Duvido que a polícia vá atrás.
- Pode ser que vá.
- Enfim, não levo muita fé.
- E não quer saber quem matou a tua esposa?
Alfredo interrompeu o gole de café que tomava.
- Mas é claro! Claro que eu quero!
- Não parece.
- O que eu posso fazer? Ela está morta, não volta mais!
- Quer que eu siga no caso?
O outro pensou. Pegou a colher, que fez rodar na xícara já quase vazia. Suspirou.
- Vou te pagar por passar a noite comigo na delegacia. Diga o teu preço por hora. - Alfredo tirou o celular do bolso e espiou seu relógio - Já temos quase dez horas, mas pode arredondar para doze.
- Hum. E acabou?
- É. Acabou.
Alfredo sacou um talão de cheques da carteira e passou a preenchê-lo, depois que Leão anunciou o valor - talvez o maior, no cálculo por hora, que já cobrou desde que se tornou detetive particular (Simão ficaria contente, pois aquela grana quitava o aluguel atrasado e ainda sobrava).
Ele destacou a folha do talão e o estendeu ao detetive.
- Tome. E me diga onde mora, eu te levo em casa.
- Não precisa, é aqui perto.
- No Cristal?
- Tristeza.
- Não é tão perto.
- Muito menos longe. Dá uma ótima caminhada, estou mesmo precisando.
- Ah. Bom, então é isto, te agradeço muito. Vou lá, que o dia será cheio, há todas as pendências de sexta-feira na empresa e ainda preciso cumprir o ritual burocrático da morte de Lúcia. Que vou te contar, esse estado brasileiro é um oceano de ineficiências, mas adora complicar a vida da gente, até depois de morto, com papeladas.
- Faz parte.
- Se houver alguma nova necessidade, eu te ligo.
- Faço questão.
Ele levantou e apertou a mão do detetive. Que segurou a sua e perguntou, encarando-o.
- Diga-me. Vocês têm filhos?
Alfredo parou. Pela primeira vez, em todas aquelas horas de convívio após a morte da sua mulher, Leão percebeu que o outro sofria alguma espécie de baque.
- Sim. Temos. - respondeu, a voz fugidia. Puxou o braço de volta, passou a mão pelo rosto, balançou a cabeça e se foi, sem dizer mais nada, passos apressados em direção ao estacionamento.
