Oscar Bessi

Leão entre Anjos e Lobos 5

Clique na imagem para lericone o Capítulo 4

 

 

 

Passava das onze da manhã e Leão sentiu os olhos arderem. Conhecia aquela sensação. Não chegava a ser bem sono, mas um desejo imenso e repentino de dormir. O que nunca conseguia. Não na plenitude do ato, por horas a fio, sem ao menos lembrar se sonhou ao acordar. O problema é que bastava entrar no apartamento, se jogar na cama e a vontade desaparecia como que por encanto. Há quantos anos tinha insônia? Uns dez. E o rivotril não surtia qualquer efeito.

Alfredo desligou o celular, onde discutia em voz alta com alguém sobre prazos de pagamentos e entregas. O rapaz de uniforme preto e avental marrom, com o símbolo da cafeteria, trouxe a bandeja com seus pedidos. Leão optou por uma torrada de atum e expresso duplo. Seu cliente preferiu pão de queijo e capuccino.

- Desculpe. Negócios. - Alfredo murmurou, digitando algo no telefone e guardando-o no bolso.

- É. Não se respeita nem a dor de um viúvo.

O outro o encarou, testa franzida.

- O que quis dizer com isso?

Leão não respondeu. Abriu um envelope de açúcar e o adicionou na xícara, mexeu seu café, provou um gole. Amava café. Talvez tanto quanto o chope.

- Gosto de tomar café aqui no Barra. É mais tranquilo, distante do meu bairro.

- Não sou muito fã de shopping.

- É um lugar seguro, pelo menos.

- Mas afinal, deu ou não depoimento? - Leão perguntou de forma ríspida. Não haviam permitido que ficasse na sala da delegado, ao lado de Alfredo. E este só fazia atender celular a manhã toda, mais para falar de negócios do que sobre a morte da sua mulher, portanto não sabia o que acontecera lá dentro. Já ele, Leão, tinha a mínima pretensão de passar o dia com aquele sujeito, ainda que o pagasse bem. Aliás, quanto mesmo?

- Informal.

- Então não deu depoimento.

- O delegado conversou comigo. Perguntou sobre a nossa vida, essas coisas. Se a Lúcia havia recebido ameaças.

- E?

- Ela é conselheira tutelar, pô. Óbvio que recebia ameaças. - ele sorveu um gole de café, olhou para os lados e corrigiu, num murmúrio - Era. Ela era conselheira tutelar.

Leão deixou seu olhar sobre Alfredo e acompanhou seus gestos sem sobressaltos, suas expressões iguais a quem acaba de perder um relógio, ou a caneta de estimação. Afinal de contas: a ficha não caiu, ele é um calhorda insensível ou tem culpa no cartório?

- O que devo saber, Alfredo?

- Não entendi.

- O que deve me contar e não contará à polícia?

O outro riu, nervoso.

- Não há nada além dos fatos. Minha mulher foi morta num assalto. Uma loucura, esta cidade está um caos. Não viu a imagem da câmera de segurança? Só levaram um celular. Mataram por um celular!

- Isto é o que a imprensa está dizendo.

- E o que deve ter sido. O que está na cara que aconteceu.

- Alfredo...

- Diga.

- Me chamou mesmo apenas para te acompanhar na delegacia?

- Foi. E te agradeço.

- Por quê eu?

- Sei lá. Teu desempenho aquele caso do notebook, lembra? Sou padrinho do guri. E sei que é ex-policial. Não me lembrei de mais ninguém, na hora, e como te disse, eu tenho pavor de delegacia. Sempre tive receio de entrar em uma.

- E o teu advogado?

- Tenho o da empresa. Acha que vou precisar dele?

- Tua mulher foi morta. Acho, até, que tens interesse que um advogado acompanhe o caso, não?

- É só mais um caso de assalto. Duvido que a polícia vá atrás.

- Pode ser que vá.

- Enfim, não levo muita fé.

- E não quer saber quem matou a tua esposa?

Alfredo interrompeu o gole de café que tomava.

- Mas é claro! Claro que eu quero!

- Não parece.

- O que eu posso fazer? Ela está morta, não volta mais!

- Quer que eu siga no caso?

O outro pensou. Pegou a colher, que fez rodar na xícara já quase vazia. Suspirou.

- Vou te pagar por passar a noite comigo na delegacia. Diga o teu preço por hora. - Alfredo tirou o celular do bolso e espiou seu relógio - Já temos quase dez horas, mas pode arredondar para doze.

- Hum. E acabou?

- É. Acabou.

Alfredo sacou um talão de cheques da carteira e passou a preenchê-lo, depois que Leão anunciou o valor - talvez o maior, no cálculo por hora, que já cobrou desde que se tornou detetive particular (Simão ficaria contente, pois aquela grana quitava o aluguel atrasado e ainda sobrava).

Ele destacou a folha do talão e o estendeu ao detetive.

- Tome. E me diga onde mora, eu te levo em casa.

- Não precisa, é aqui perto.

- No Cristal?

- Tristeza.

- Não é tão perto.

- Muito menos longe. Dá uma ótima caminhada, estou mesmo precisando.

- Ah. Bom, então é isto, te agradeço muito. Vou lá, que o dia será cheio, há todas as pendências de sexta-feira na empresa e ainda preciso cumprir o ritual burocrático da morte de Lúcia. Que vou te contar, esse estado brasileiro é um oceano de ineficiências, mas adora complicar a vida da gente, até depois de morto, com papeladas.

- Faz parte.

- Se houver alguma nova necessidade, eu te ligo.

- Faço questão.

Ele levantou e apertou a mão do detetive. Que segurou a sua e perguntou, encarando-o.

- Diga-me. Vocês têm filhos?

Alfredo parou. Pela primeira vez, em todas aquelas horas de convívio após a morte da sua mulher, Leão percebeu que o outro sofria alguma espécie de baque.

- Sim. Temos. - respondeu, a voz fugidia. Puxou o braço de volta, passou a mão pelo rosto, balançou a cabeça e se foi, sem dizer mais nada, passos apressados em direção ao estacionamento.