Um tiro. Distante, muito distante.
Era um rio imenso, não enxergava a margem oposta. Parece um mar, disse para alguém. Um mar prateado onde a luz do sol passeia e nos chama. Ninguém respondeu e só então se deu conta, estava sozinho. Janete? Veio o barco e os caras cheios de armas. Olha ele ali! Tentou dizer calma, há algum engano, sou de fora, não conheço ninguém por aqui. O barco subiu o barranco. O quê? O barco de vocês sobre o barranco? Mas que coisa é essa? Tiro. Outro tiro. Outro tiro.
Puro sadismo, sons de tiros no despertador do celular.
- Alô?
Esfregou os olhos e procurou o telefone. O que estava fazendo, afinal? Queria atender o despertador?
14h30. Precisava sair. Por quê, mesmo?
Leão se espreguiçou. A janela entreaberta trazia a invasão de uma nesga de sol forte e inconveniente que lambia a porta do roupeiro, um naco da cama e os seus joelhos, sobre o lençol. Encolheu as pernas por instinto. Há quantos dias não trocava o lençol? E a fronha?
Sobre o criado mudo, ao lado de "Maigret se defende", duas canetas, o abajur, celular, uma xícara de café sem café e as caixas de remédios que desistiu de tomar. Rivotril 2.0 - que não lhe adiantava de nada -, prozac, sertralina e a malfadada venlafaxina 37,5mg, cuja caixa deixou pela metade, após os dez dias determinados na receita, para seguir com a de 75mg. Que também largou de mão depois de ler na internet, quase dois meses depois e já na segunda caixa, que ela tinha como efeito colateral o desejo de cometer suicídio. Aproveitou a deixa e abandonou todos os outros remédios também. Todos. E o psicólogo.
E o psiquiatra.
Chope bem gelado era melhor que tudo isso. O problema é que não podia beber vinte e quatro horas. E sem chope, sozinho, a coisa estava ficando complicada.
Sentou-se à beira da cama. O celular tocou. Ficou pensando. O que tinha de compromisso, mesmo?
- Alô.
- Leão?
- Quem é?
- Quero falar com o detetive Leão.
- Quem é?
- Marta, do DHPP.
Silêncio. O que essa tal Marta, do DHPP, queria com ele?
- E o que seria?
- O senhor é o Leão?
Gostou da voz dela. Suave. Mas decidida.
- Aham.
- Pode dar um pulo aqui na delegacia?
- Por?
Suspiro de impaciência. Seria loira ou morena?
- O senhor foi testemunha do depoimento de Alfredo de Souza Ranholfendt, hoje pela manhã.
- Sim.
- O delegado gostaria de conversar com o senhor.
- Delegado?
- Exato.
- Que delegado? E por quê?
- O encarregado do caso.
- Hum.
Leão pensou em indagar quem era o encarregado. Mas deixou pra lá, não faria qualquer diferença, só perguntou se havia pressa. Ela disse que o delegado gostaria de conversar com ele ainda naquela tarde, de preferência. Leão agradeceu e ficou em silêncio alguns instantes matutando. Talvez o sujeito estivesse achando que ele teria algum envolvimento com Alfredo, esses caras acham que detetive particular e capanga é a mesma coisa.
- E não é?
Frase de Janete. Na noite da última discussão.
- Tá, eu já vou. Tenho umas coisas para resolver. Chego aí em uma hora, no máximo.
- Ok. - respondeu a voz que, de tão macia, deu-lhe a impressão de ser palpável - O delegado Júlio agradece.
Quem? Como é que é? Qual o nome do delegado, guria? Repete! Júlio? Ah, não! Não acredito!
Gritou uns três ou quatro palavrões. Disse que não botaria seus pés em porcaria de delegacia nenhuma. Não com Júlio, não com aquele...
Ela já havia desligado. Olhou a janela. Suava.
Tiro. Tiros.
Tiros e mais tiros.
Porra, onde é que cancelo esse despertador?
