Oscar Bessi

Leão entre Anjos e Lobos 7 e 8

Clique na imagem para lericone o Capítulo 6

 

 

 

7

Um em frente ao outro. Meninos, ainda apenas primos, aquilo significaria algum desafio divertido de futebol de mesa, pife, bolas de gude, dama ou gamão. Adolescentes, já transformados em irmãos pelo destino, seria uma briga, onde ele levaria a pior. Em todos os sentidos.

- Estávamos bem. - murmurou o delegado, a caneta nervosa rodopiando entre os dedos.

Leão baixou os olhos para a mesa entre eles. Papéis. O pai. A vida. Quis dizer ao Júlio que ele falava demais, falava besteira, que tinha mais é que enfiar a língua naquele lugar e deixar de se meter na vida dele. Não era mais o guri de merda lá de casa.

- É. Estávamos. - resmungou.

- Não quero que você se mate, cara. O pai...

Leão saltou da cadeira.

- Cala a boca! Deixa o pai fora disso!

Júlio fez um gesto preocupado, pediu silêncio, poderiam ouvir. "Quer que entrem aqui e te prendam por desacato? Calma, cara! Não está mais aqui quem falou".

Um vulto feminino surgiu na porta, atrás de Leão.

- Tudo bem, delegado?

- Sim. Tudo.

- O senhor precisa de algo?

- Não. Já te chamo, obrigado.

- Estamos na SI. Toda a equipe, aqui ao lado.

A porta se fechou outra vez. "Toda equipe, aqui ao lado". Leão entendeu que o recado era para ele.

- Pelo menos tem tomado os remédios?

- Te interessa?

- Me interessa.

- Olha, se me chamou aqui pra fuxicar na minha vida, estou caindo fora.

O delegado suspirou. Foi para a janela e acendeu um cigarro.

- Desde quando fuma?

Júlio encarou o detetive particular. Soltou uma fumaça. Olhou o céu sem nuvens lá fora, sobre as torres de concreto da capital.

- Ainda não te contei. Mas eu e a Clara... - ele respirou fundo, deu uma tragada forte no Camel, passou o punho nervoso pela testa para secar o suor - Perdemos o bebê.

 

8

 

Leão engoliu em seco. Pediu desculpas, não sabia. Quando aconteceu, como foi? Júlio falou sobre o dia em que a esposa passou mal, em casa, após o almoço. Foram ao hospital, o atendimento pelo IPE demorou demais. Não havia médico conveniado na emergência.

- A gente paga essa porcaria direto no salário da gente. E o que recebe em troca? Até o SUS é melhor!

Um carro buzinou suas impaciências lá fora. Leão olhou o vulto difuso de Júlio contra a luz da janela.

- Fiquei sabendo no dia em que te liguei.

- Não me contou.

- Estava fulo da vida, nervoso, cansado, irritado. Lembra?

- Sim.

- Tínhamos voltado de Canela, daquele caso lá da pousada. O da missa negra.

- É.

- A Secretaria de Segurança no meu rim. Nem aí para o meu problema.

- Nunca estão.

O delegado sorriu.

- No final das contas, nós nos demos bem lá na Serra, né?

- É.

- E naquele dia em que te liguei, brigamos.

- Pra variar.

- E nem te falei nada.

Um silêncio pesado e desconfortável tomou conta da sala. O celular de Júlio tocou. Ele não atendeu. O aparelho insistiu. The show must go on ecoou pela sala. Another hero, another mindless crime, behind the curtain in the pantomime. Hold the line, does anybody want to take it anymore?

Outro crime impensado... Hum. Desde quando Júlio gostava de Queen?

Um instante depois, bateram à porta.

- Delegado?

Era a mesma voz de antes.

- Fale.

- Temos novidades. - ela acenou com um papel na mão, enquanto a outra segurava a porta. Leão finalmente olhou a mulher e viu apenas parte do seu rosto. Os olhos, o cabelo, os lábios. As mãos.

Caramba!

Janete?