Oscar Bessi

Leão entre as distâncias

13234747_1048276195208516_637542816_oO casal fingiu não me conhecer ao ingressar no bar. Não entendi.

Meu nome é Edgar Leão - mas não mordo, eu diria, se fosse para alguma mulher sozinha -  e sou detetive particular. Sim, detetive. Não sou consultor de coisa nenhuma. Odeio essas firulas terminológicas, dizem as mesmas bobagens de antigamente, só com toques refinados que não passam de uma boa desculpa para cobrar mais caro. "Frescura na embalagem? Precisa é conteúdo!", diria o Simão, meu sócio e auxiliar, um brigadiano aposentado de Pelotas que é fanático pelo Xavante, costela no espeto ou um chimarrão a qualquer hora do dia.

O casal trocou algumas palavras me olhando de soslaio. Vieram à mesa.

- Boa noite, detetive. - apenas ele me cumprimentou, sem estender a mão.

- Boa noite.

A mulher me olhou por uma fração de segundo, depois para o marido e baixou os olhos.

- E então? - perguntou ele - Algum resultado?

- Talvez. - eu sorri, encarei os dois e reclinei as costas na cadeira de palha trançada. Abri o braço direito como quem está deitado numa rede e com a mão esquerda passei a brincar com meu caneco de chope, já pela metade. Dizem que se mostrar descontraído e superior deixa o interlocutor nervoso. E eu queria a instabilidade daquele casal.

- Talvez como? O senhor descobriu algo ou não? - os olhos dele, injetados, queriam me engolir.

- Algumas coisas. - dei de ombros.

Agora foi a mulher que me encarou com raiva. Finalmente ouvi a sua voz.

- Pagamos pelo seu trabalho e muito bem pago. Pediu duas semanas, não foi? Teve. Não pode vir aqui, agora, e nos responder com evasivas.

O marido pediu calma. Eu sorri. Ele não gostou do meu sorriso, então decidi provocar um pouco mais.

- Vocês conhecem "Father of mine"?

Eles se olharam. Depois seus olhos me fitaram quietos e cheios de indagações.

- Everclear? - insisti.

Silêncio.

- Daddy gave me a name. My daddy gave me a name, Then he walked away.

- O senhor está querendo brincar conosco?

- É só o trecho de uma música. Pensei que conhecessem. - encarei ambos, esperando alguma reação, porém nada veio de seus gestos além da tensão muscular facial que revelava insatisfação e impaciência - Bem, mas vamos ao relatório. Vocês devem estar curiosos, não?

- Estamos aqui para isto.

Respirei fundo. Confesso que me deu uma vontade imensa de mandar aqueles dois longe. Ou pelo menos para a casa deles, cuidar do filho. Ora, contratarem um detetive para saber o que o guri faz no celular, se está usando drogas, com quem e o quê conversa. Quando o sujeito me ligou, quase não acreditei na proposta. No meu tempo pai e mãe assumiam seu papel.

Ou pelo menos um deles.

Enfim, sou profissional. Aceitei o caso. Fui até a casa deles e consegui instalar o Flexispy no celular do menino. Gosto de usar este programa e também de alguns outros não legalizados. A vantagem deste, que nasceu para monitorar cônjuges infiéis, é que pelo fato da empresa estar fora dos EUA, crescia no mercado e ampliava a oferta dos serviços de monitoramento. Os concorrentes norte-americanos tiveram tantos problemas legais que alguns desapareceram do mercado. E negócio da "espionagem parental" estava cada vez maior no mundo tudo, fruto do medo de terroristas, pedófilos e etc.

- Peço que leiam isto.

Ofereci uma folha impressa de um diálogo no whatsapp. Era uma sequência de conversas do menino com a sua prima. Eles leram com atenção, juntos. Observei a reação de ambos. Foram se contraindo, paulatinamente, encolhendo os braços, os ombros, os olhares, como se fossem crianças com medo do escuro escondidas sob a cama. Ofereci os outros documentos. Leram, pularam páginas, voltaram, apertaram os lábios e os dedos.

O pai engoliu as lágrimas e gaguejou.

- Então ele...

- Vai pagar em cheque ou dinheiro? - interrompi - Preciso ir, tenho outro compromisso.

Os dois se olharam outra vez. Pareciam assustados. Ficaram alguns instantes sem saber o que fazer, até que ele sacou o talão de cheques e passou a preenchê-lo. Assinou. Percebi um leve tremor em suas mãos.

- Pode nos esclarecer algumas coisas antes? - ele perguntou, antes de me estender a folhinha com meu pagamento.

Assenti com um gesto de cabeça.

- Ele chegou a comprar drogas? A usar? Isso de nos odiar é sério? O que pode acontecer? Sim, a gente se preocupa, essa onde de crimes que se vê no noticiário... Pô, logo a gente! Nosso filho! Sabe, sempre demos tudo pra ele, tudo mesmo, até...

- Um abraço?

Silêncio.

- Não entendi sua observação.

Olhei o sujeito com desprezo e fiquei na minha. Eu não tinha nada que explicar o significado de um abraço a quem pôs filho no mundo.

- "Papai me deu um nome. Meu papai me deu um nome, então ele foi embora".

- Hein?

- A tradução das frases que falei antes, em inglês.

- Ah. O senhor gosta de falar inglês, que ótimo. Podemos voltar ao assunto do nosso filho?

- Father of mine, tell me what do you see. When you look back at your wasted life and you don"t see me.

- Por favor! Que palhaçada é esta?

- "Meu pai, me diga o que você vê. Quando você olha para trás em sua vida perdida e você não me vê".

- Escuta aqui, meu caro, nós não...

- "Father of mine", Everclear. - esperei os olhares silenciosos e interrogativos - A música preferida do seu filho.

A mulher levou a mão direita aos olhos. Pude ver seus anéis, suas unhas cuidadas, seu tremor.

- Ele ouve todos os dias. E bem alto, na casa de vocês. - murmurei, encarei ambos, engoli minha raiva, peguei o cheque e me levantei - Bom, vocês já tem o relatório. E a música. Bom proveito.

Na porta, um vento úmido me fez levantar a gola do sobretudo. Lembrei de quando não tive meu pai querendo tê-lo. E de todas as bobagens que pensei naqueles dias.

Meu nome é Edgar Leão. E eu mordo.