Oscar Bessi

Leão entre as dunas 10

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Capítulo 10

 

A partir daquele momento, Ladislau se encolheu na cadeira e não falou mais. Volta e meia dava um gole tímido no chope ou balançava suavemente o copo no ar, em círculos, como se fosse dentro dele houvesse algo a misturar. Pensamentos líquidos. Medo e ansiedade? Vergonha? Ana, ou Sara, passou a conduzir a conversa.

- Vou lhe explicar o que precisa saber para ir atrás do nosso computador. E nada mais.

- Tudo bem.

Ela respirou fundo, sem desfazer a carranca. E eu fiquei imaginando os vídeos eróticos.

- Temos uma pequena empresa. E espero que o senhor tenha uma noção mínima de economia, mas as pequenas empresas são as que mais sofrem hoje em nosso país. Vivemos asfixiados por tributos. Quase pagamos para trabalhar e gerar empregos.

Discurso de sonegadora, pensei com meus botões. Lá vinha bomba.

- E o arrombamento? - perguntei, simulando tédio. Mas era impossível qualquer sentimento semelhante ao enfado com aquela mulher na minha frente. E no comando.

Tinha ocorrido naquela noite, enquanto Ladislau jantava fora com os filhos. Foram antes no natal para a praia e ficariam até iniciar a segunda quinzena de janeiro. Perguntei quantos filhos eram.

- Dois.

Ele suspirou e tomou um gole maior, ainda em silêncio.

- Pequenos?

- Vinte, o garoto. E a menina tem dezessete.

Olhei instintivamente para Ana, ou Sara, com uma expressão de surpresa.

- Filhos do Ladislau, meu caro. Ele ficou viúvo há cinco anos. Eu não tenho filhos.

Temos algo em comum, pensei em dizer. Eu me chamo Edgar, sobrenome Leão, e também não tenho filhos.

Ela seguiu o relato. Saíram ali pelas nove, quando o horário de verão enfim anoitece, e retornaram perto de duas da manhã. Na chegada, estranharam o portão aberto. Ele tinha certeza de ter pedido ao Cris que o chaveasse.

- Cris?

- O guri.

Ladislau desconfiou. Desceram todos do carro e viram a porta da frente arrombada. Entraram com cautela, acenderam as luzes da sala e não perceberam muita bagunça, como é comuns nestes casos.

- Os ladrões, ou ladrão, pegaram apenas o que interessava, talvez. Levaram algo mais?

- Dois óculos de sol que estavam sobre o balcão da cozinha. Nada mais.

- O note estava na sala ou na cozinha?

- No quarto.

- Ao lado da sala?

- Andar de cima.

Tirei minha caderneta do bolso e anotei. Percebi que Ladislau ficou de olho no que eu escrevia. Já a morena seguiu o relato e comentou que nenhum vizinho viu qualquer movimentação suspeita, tampouco o guarda de rua. “Se bem que o Ladislau não paga essa segurança de rua, como os donos das outras casas. Que não sabe que isso é uma máfia, uma extorsão?”, observou Ana. Ou Sara.

Grifei este detalhe.

- Talvez eu precise dar uma olhada na casa. E conversar com pessoas da volta.

- Talvez? - perguntou Ana, ou Sara, no seu terceiro fuzilamento em olhos faiscantes daquela noite. Eu já me sentia uma traficante na Indonésia.

- Eu apenas sugiro, moça. O cliente é quem topa ou não a minha proposta.

- Temos a nossa proposta. - ela frisou o “nossa” em sílabas pausadas, e me encarou, decidida, ereta, deixando claro que não haveria ou hipótese de alguém a não ser ela, dar as ordens naquela noite. Mil pensamentos de ano novo bailaram por minha mente. Ô lá em casa!

- Qual? - balbuciei.

- Tu vais pra lá amanhã cedo e se instala na casa como veranista. Tem três dias para resolver o caso. Adiantaremos as tuas despesas e pagaremos bem, assim que nos entregar o notebook.

Vi que Ladislau se encolheu ainda mais.

- Quanto é pagar bem? - perguntei, virando meu último gole de chope.

Ela sorriu pela primeira vez. E era um sorriso de águas geladas e turvas.

- Bem mais do que tu merece.

 

* * *

 

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Amanhã, não perca o 11º capítulo de…