Oscar Bessi

Leão entre as dunas 11

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Capítulo 11

 

Fiquei sem resposta. Sem ação. Apenas boquiaberto. Não era minha culpa se Ana, ou Sara, me deixava ao mesmo tempo fulo da vida e excitado. Ela me deu mais algumas ordens, fiz duas ou três perguntas e anotei os detalhes que me pareceram importantes.

- Bacana. - Ladislau ressuscitou, discretamente.

- O quê? - grunhi.

- Sua caderneta.

Concordei. Era uma edição especial do Correio do Povo, a capa reproduzia a primeira página do primeiro exemplar do jornal, de outubro de 1895. Expliquei que tinha valor sentimental, eu pertencia à quarta geração de leitores do Correio em minha família. Só achei desnecessário revelar que eu havia comprado dez cadernetas iguais.

- Também sou leitor do Correio.

- Então temos mais uma coisa em comum.

- Mais uma? - ele estranhou.

Olhei a morena e decidi afastar alguns pensamentos. Alguns.

- O que tem no notebook, mesmo?

Ladislau soltou um suspiro mais longo que os dos telefonemas, murchou outra vez e ainda mais. Ele e a mulher se olharam. E foi ela quem respondeu, com uma gigantesca e nada disfarçada má vontade.

- Temos alguns arquivos importantes nele. Que não gostaríamos que caíssem em mãos erradas.

Minha mente pervertida acelerou conclusões. Eu acharia aquele notebook nem que ele já estivesse esquartejado nalgum desmanche de informática, ou servindo de brinquedo para o filho de algum traficante de crack no litoral. Tentei confirmar minhas suspeitas. Fetiches são assim. Não adianta insinuar, tem que ter certeza.

- Podem me dizer que arquivos são esses?

Ladislau enterrou a careca entre os braços. Ela, pra manter o ritmo, me fuzilou com os olhos.

- Não.

Ela me lançou o olhar mais frio daquela noite mormacenta e deixou claro que, o que havia no notebook, não me interessava, e o meu trabalho era apenas recuperar o computador. Pra mim, foi uma confissão sobre o seu conteúdo.

Acertamos valores e outros detalhes. Chequei todos os dados para que reconhecesse o notebook ao recuperá-lo, como marca, modelo, plano de fundo, proteção de tela, pastas da área de trabalho e detalhes pessoais. Havia um adesivo da Bety Boop ao lado do teclado. Lembrei o que disse uma ex-namorada sobre aquele desenho há alguns anos. Com ciúmes de uma amiga minha, que tinha uma Betty tatuada no ombro, ela explicou sua teoria sobre ser esta personagem uma espécie de código entre mulheres liberais - não foi bem esta a palavra que ela usou, em seu ódio -, pois Betty Boop era a representação em desenho animado de uma prostituta. “E dão isso para as meninas, como pode?”. Achei forçado. Ela era adepta dessas teorias da conspiração para justificar suas paranóias. E tinha ciúmes até do meu Maverick.

Bety Boop, anotei, encarando a morena.

Bem que podia ser.

Ana, ou Sara, deve ter lido os meus pensamentos infames e rosnou uma série de ordens ríspidas quanto a casa, os cuidados que eu deveria ter com móveis, pátio, eletrodomésticos e etc. Eu já estava começando a achar aquela mulher um porre. Que adianta ter aquele corpão e ser uma chata de galocha? Fiquei com pena do careca.

- O senhor tem três dias para nos entregar o note.

- É um prazo curto. - argumentei.

Ela sorriu. Pior do que antes.

- Se não tivéssemos pressa, meu caro, procuraríamos a polícia.

* * *

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Amanhã, não perca o 12º capítulo de…