Oscar Bessi

Leão entre as dunas 13

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Capítulo 13

Na volta para casa, andei sem pressa por uma Wenceslau que anoitecia eufórica na expectativa do réveillon. Atravessei justo onde o canteiro central era mais inclinado. Caminhar é bom. E eu digeria dois canecos de chopes e o azedume daquela morena magnífica, além das fantasias inevitáveis sobre os vídeos ou fotos que haveria no tal notebook.

Quase na esquina com a Otto, esperei passar um grupo de rapazes exultantes e barulhentos entre suas latas de cerveja e long necks de vodca. Tendo apenas o ruído incessante dos carros, tirei o meu celular do bolso e liguei.

- Bah, tchê! Pensei que tinha fugido com o nosso dinheiro. - Simão deu uma gargalhada do outro lado.

- Quase. Tive um problema.

- Hum. O que foi desta vez?

- Nada de anormal. Mostrei a gravação para a Dona Valquíria. O problema é que o marido estava lá.

- E?

- Ele leu antes o e-mail que ela me mandou e correu na frente, montou uma farsa sobre chantagem, fez beicinho e ela acreditou só nele. Enfiou uma Glock na minha testa e não pagou.

- A la pucha! Na frente de todo mundo?

- No escritório dela.

- Ué?

- Eu sei, nunca faço isso. É que eu queria passar no centro, fazer minhas compras de natal, essas coisas.

- Natal?

- Ano novo.

- Mas que compras, vivente?

- Se eu quiser fazer compras, como um cara normal, qual é o problema?

- Primeiro, tu tem que ser um cara normal.

- Cuida da tua vida.

- Arranja um rabo de saia, animal! Tá ficando dezoito.

Dezoito é como Simão chamava todos os que tinham alguma espécie de perturbação mental. Era um código de ocorrência, se não me engano, sobre incapazes. Ele foi brigadiano a vida toda e agora, aposentado, era o meu sócio. Gaudério de Pelotas, se instalara na capital por um tempo a fim de acompanhar a filha - nunca me esclareceu exatamente o motivo -, matriculada na faculdade de teatro da UFRGS. Misturava, a todo instante, gírias de caserna ao gauchismo do seu linguajar. Tradicionalista radical, não largava a bombacha nem no verão.

- Então adeus férias pro nosso lombo cansado.

- Errado. Dei sorte e já arranjei outro cliente.

- Mas que tal!

- Vamos para a praia amanhã cedo.

Ele pensou um pouco antes de responder. Imaginei que estava rolando o dedão e o indicador pelos fios do bigode basto, cacoete de quando matutava.

- Pôs amanhã não dá, tchê. Minha sogra chega de Pelotas.

Putz.

- Tá. Vou passar aí e a gente conversa melhor. - falei.

- Tô com um chimarrão bagual te esperando.

Novidade. Ele estava sempre com um chimarrão bagual esperando qualquer um, a qualquer hora.

- Ah. E vou precisar do Maverick.

- Pra amanhã?

- Hoje.

- Bah, tchê. Temos um problema.

- Simão...

- Faz o seguinte. Te aprochega, aqui a gente conversa melhor.

* * *

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Amanhã, não perca o 14º capítulo de…