Capítulo 13
Na volta para casa, andei sem pressa por uma Wenceslau que anoitecia eufórica na expectativa do réveillon. Atravessei justo onde o canteiro central era mais inclinado. Caminhar é bom. E eu digeria dois canecos de chopes e o azedume daquela morena magnífica, além das fantasias inevitáveis sobre os vídeos ou fotos que haveria no tal notebook.
Quase na esquina com a Otto, esperei passar um grupo de rapazes exultantes e barulhentos entre suas latas de cerveja e long necks de vodca. Tendo apenas o ruído incessante dos carros, tirei o meu celular do bolso e liguei.
- Bah, tchê! Pensei que tinha fugido com o nosso dinheiro. - Simão deu uma gargalhada do outro lado.
- Quase. Tive um problema.
- Hum. O que foi desta vez?
- Nada de anormal. Mostrei a gravação para a Dona Valquíria. O problema é que o marido estava lá.
- E?
- Ele leu antes o e-mail que ela me mandou e correu na frente, montou uma farsa sobre chantagem, fez beicinho e ela acreditou só nele. Enfiou uma Glock na minha testa e não pagou.
- A la pucha! Na frente de todo mundo?
- No escritório dela.
- Ué?
- Eu sei, nunca faço isso. É que eu queria passar no centro, fazer minhas compras de natal, essas coisas.
- Natal?
- Ano novo.
- Mas que compras, vivente?
- Se eu quiser fazer compras, como um cara normal, qual é o problema?
- Primeiro, tu tem que ser um cara normal.
- Cuida da tua vida.
- Arranja um rabo de saia, animal! Tá ficando dezoito.
Dezoito é como Simão chamava todos os que tinham alguma espécie de perturbação mental. Era um código de ocorrência, se não me engano, sobre incapazes. Ele foi brigadiano a vida toda e agora, aposentado, era o meu sócio. Gaudério de Pelotas, se instalara na capital por um tempo a fim de acompanhar a filha - nunca me esclareceu exatamente o motivo -, matriculada na faculdade de teatro da UFRGS. Misturava, a todo instante, gírias de caserna ao gauchismo do seu linguajar. Tradicionalista radical, não largava a bombacha nem no verão.
- Então adeus férias pro nosso lombo cansado.
- Errado. Dei sorte e já arranjei outro cliente.
- Mas que tal!
- Vamos para a praia amanhã cedo.
Ele pensou um pouco antes de responder. Imaginei que estava rolando o dedão e o indicador pelos fios do bigode basto, cacoete de quando matutava.
- Pôs amanhã não dá, tchê. Minha sogra chega de Pelotas.
Putz.
- Tá. Vou passar aí e a gente conversa melhor. - falei.
- Tô com um chimarrão bagual te esperando.
Novidade. Ele estava sempre com um chimarrão bagual esperando qualquer um, a qualquer hora.
- Ah. E vou precisar do Maverick.
- Pra amanhã?
- Hoje.
- Bah, tchê. Temos um problema.
- Simão...
- Faz o seguinte. Te aprochega, aqui a gente conversa melhor.
* * *
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Amanhã, não perca o 14º capítulo de…

