Oscar Bessi

Leão entre as dunas 14

* Perdeu o capítulo anterior? Clique aqui 

Capítulo 14

 

Cruzei pela Escola Padre Réus, imersa como um fantasma no escuro de suas férias, saí da Otto e entrei na rua estreita ao lado de um edifício de apartamentos que tomava conta de quase toda a quadra. Simão morava numa casa simples de aluguel que parecia deslocada na Teresa Cristo, o pátio generoso aos fundos onde criava galinhas e tinha laranjeira, limoeiro, bergamoteira e a sua horta. Eu soube que os vizinhos já denunciaram mais de uma vez o seu galinheiro em área urbana. Mas Simão não conseguiria viver sem os seus cacoetes interioranos. No máximo concordou em terminar com a pocilga.

Estava de bombacha e sem camisa, salgando uns espetos de costela e picanha sobre a gamela, quando abri o portão.

- Te abanca, vivente!

- Não vou demorar. O que houve com o carro?

- Puxa um banco.

Ele largou o que estava fazendo, sentou num cepo e encheu a cuia. Lá vinha explicação longa.

- Primeiro me conta direitinho esta história de praia.

Contei. Falei da morena, do careca, do notebook. Ele ouvia e balançava a cabeça, olhar parado em mim, levava a bomba com bocal folheado a ouro de quando em quando aos lábios e ela sumia sob o bigodão de raros fios brancos.

- Tem côsa estranha nessa história. Tem certeza de que esses dois são um casal?

- Não há mais padrões para se dizer que é um casal nos dias de hoje, Simão.

Ele encheu uma cuia e me ofereceu, estendendo a mão direita. Só aceitei porque ele interpretava como falta de educação recusar seu amargo. Mas imaginei que não daria muito boa coisa, no meu estômago, aquela mistura de água quente com chope gelado.

- O padrão é ter afinidade. Acha que eles têm afinidade.

- Cedo pra se dizer. - respondi, depois de pensar um pouco - Ela pode estar num dia ruim. E, pensando bem, não perguntei. Nem me disseram

- Ele fingiu não que é um banana, mandado por ela?

- O que Ladislau ganharia com isto?

Ele pegou a cuida que devolvi depois de tomar meu chimarrão, sorriu e levou o seu indicador, mais grosso que o meu dedão, a dar duas batidinhas na cabeleira basta.

- A tua ideia torta. É o que eles precisam.

Hein?

* * *

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o 15º capítulo de…