Oscar Bessi

Leão entre as dunas 15

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Capítulo 15

 

Ele fez um sorriso de meia lua enquanto sorvia seus goles de chimarrão até roncar a bomba. Serviu uma nova cuia, me ofereceu, levantou do cepo e ficou me encarando, o olho naquele brilho que misturava esperteza e zombaria. Esperava que eu mesmo encontrasse as respostas que lhe pareciam óbvias. Fico fulo da vida nessas horas, pois me sinto um menino perdido.

Esse meu sócio é uma figura. Simão, brigadiano de Pelotas, como faz questão de se apresentar. Bigodudo e gaudério. Nada a ver com qualquer estereótipo que alguma piada pudesse sugerir, fosse sobre pelotenses ou até mesmo brigadianos, que é como se chama desde sempre o policial militar aqui no RS. Sabia tudo de comportamento humano e passeava em trote sereno quilômetros à frente de minhas indagações. Gostava de resolver as coisas e tomar decisões numa roda de chimarrão. Se tivesse estudado, seria um baita psicólogo. Mesmo assim, na maioria das vezes aquele seu método empírico, baseado apenas na desconfiança ou na experiência, me irritava. Tudo bem, ele olhar o céu e contrariar a previsão do tempo na televisão. E acertar sempre. Mas achar que adivinha todos os passos e pensamentos das pessoas era um pouco demais.

- Eles te contaram de que jeito chegaram ao teu nome?

- Pelos classificados do Correio. Como a maioria. Se não fosse pelo jornal, seria por indicação, mas não foi o caso. Espero que ainda lembre que somos sócios e que só assim, mesmo, para me encontrar.

- Bah.  Lembro todo fim de mês desse negócio de sociedade. É quando pago a conta de luz e o aluguel do escritório. Não sei pra quê, não vai ninguém lá.

Ele não perdia a oportunidade de reclamar.

- Temos que ter uma base. Trouxe o dinheiro, falando nisto. Deram adiantamento para as despesas. Cobre as nossas contas e sobra, aí o senhor pode parar de torcer esse bigode.

- Hum.

- Que foi? Achou pouco?

Ele salgou um espeto de maminha, levou à churrasqueira e suspirou.

-Bueno. Fico aqui matutando, mas matutar não me leva a lugar nenhum, então esquece. - ele disse, fazendo um gesto ligeiro com a mão como quem afugenta moscas, além do pensamento - Bamo que bamo achar o troço do homem. Eu não vou amanhã, mas depois te ligo e aí nos encontramos por lá.

- Tudo bem.

- Qual é a praia, mesmo?

- Tramandaí.

- A la pucha! Aquilo é um fervo!

- Isso pode ser bom.

- Te vai cedito?

- Vou.

- Então pega o carro amanhã, antes de sair.

- Preciso dele hoje.

- Pra quê? - o olhar dele endureceu.

Eu não queria dizer e insisti que só precisava dele e pronto. O Maverick era meu, mas era meio dele, ainda. É que eu não havia pago o valor total. Foi no negócio daquela raridade de carro que nos conhecemos, há dois anos, e ficamos amigos. E sócios.

- Tá. Me conta o que houve com o carro.

Ele levantou com calma, ajeitou a guaiaca no cós da bombacha, pigarreou, apanhou a chaleira preta, encheu outra cuia e me estendeu. Sumiu dentro de casa. Voltou com as chaves.

- Toma. Não aconteceu nada. Mas não vá me fazer besteira, pelamor de Deus.

- Não se preocupe. Tenho que trabalhar cedo.

- Pai! - o grito veio de dentro de casa e, em instantes, a filha de Simão estava na porta. Com suas roupas minúsculas e o rosto, principalmente os olhos, com muita pintura. O pierceing e a tatuagem de uma cobra naja de olhar picante que emergia da virilha aparecendo com generosidade, quase deixando à mostra sua região pubiana. E, como sempre, mal me deu atenção, apenas gritou, jogando um beijo rápido na direção do pai - Tô indo!

Ele não respondeu e apenas acompanhou a filha desaparecer saltitante portão afora. Embarcou num carro escuro que até então não era visível para nós e, na esquina com a Otto, saiu cantando pneu. Simão continuou por alguns instantes quieto e nitidamente contrariado.

- Vai jantar sozinho? - perguntei.

- Eu e a minha velha. Tem um baita lombo no espeto. - ele respondeu, dando a impressão de que já tinha esquecido a filha - E espaço pra mais bocas. Que te parece?

Devolvi o chimarrão e agradeci. Tinha minhas coisas a fazer. Se desse, apareceria mais tarde. Quando estava quase no portão eu senti sua mão pesar em meu ombro a ponto de me impedir de andar.

- Tchê. Só não vai ficar de butuca naquela casa, tá? Larga isso de mão.

Tive vontade de mandá-lo para bem longe, mas me calei. Dei as costas, entrei no carro e parti. Para a casa de Janete.

* * *

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Amanhã, não perca o 16º capítulo de…