Oscar Bessi

Leão entre as dunas 16

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Capítulo 16


Deixei o carro deslizar em ponto morto. Faróis apagados. Naquela altura da arborizada e mal iluminada Ascensão, no bairro Glória, era raro haver carros estacionados. Principalmente à noite. Mesmo gente caminhando pelas calçadas não era comum, assim tão tarde, talvez pela proximidade do Morro da Polícia e suas histórias de gangues e tráfico, por mais pitoresco que possa parecer por causa do nome. Parei. De onde estava, eu conseguia ter uma boa visão da casa de Janete.

Vasculhei a redondeza para ver se não havia algum vulto suspeito. Nada, nenhum movimento. Só as casas cheias de luzes na euforia da virada de ano, contida pela teia de grades que as protegiam do mundo externo. Pouca gente nos pátios, apesar das janelas abertas. Não era recomendável ficar dentro do carro por muito tempo naquele ponto, já me dissera o sargento de uma patrulha, duas noites antes. Eram dois PMs. Eles me abordaram, me revistaram, vasculharam o carro e, depois de conferir que não tinha nada, queriam saber o que eu fazia ali. Aleguei que estava tentando uma ligação com o celular, sem sucesso. Aconselharam-me a parar noutro lugar, mais iluminado, e foram embora. Não dou bola para isso de lugar perigoso. Todos os lugares podem ser perigosos nas capitais de hoje. Mas eu não disse isso aos dois, menti que já estava saindo, agradeci a preocupação e me mandei. Só faltava me pegarem ali outra vez. Ficaria mais complicado de explicar.

A sala da casa de Janete estava com a janela lateral aberta, de frente para onde eu estava. A luz deixava ver, atrás do quadriculado das grades de ferro, a mobília discreta em seu interior. Poucos quadros nas paredes. Uma idosa de vestido claro cruzou em frente à janela em passos trôpegos, com algo na mão, e sentou. Apenas sua cabecinha de cabelos brancos cacheados ficou no meu campo de visão. Dez minutos ou mais se passaram até que eu visse Janete. Ela falou com a velha, veio até a janela, voltou, repetiu o gesto mais duas vezes. Parecia olhar na minha direção. Instintivamente me encolhi no banco do carro, como se adiantasse alguma coisa.

Ela desapareceu. O meu celular tocou, chamada não identificada, não atendi. Ela reapareceu e parou no meio da sala, mais distante da janela. Eu via o seu perfil quase completo. Conversava com a senhora sentada na poltrona e ambas olhavam na mesma direção, que concluí ser onde estava um televisor. Minha vontade era descer do carro, derrubar aquela porta e dizer umas verdades. Botar os pingos nos is. Era o último dia do ano, eu tinha justificativa. E toda aquela carga simbólica de recomeço talvez me desse coragem.

Ela voltou à janela.

No final da rua, lá embaixo, surgiu o giroflash de uma viatura da Brigada. Liguei o Maverick e arranquei, ainda sem acender as luzes. Janete continuava na janela e era certo que observava o meu carro. Acelerei, entrei na primeira rua à direita, liguei os faróis. Em instantes estava na Oscar Pereira. Eu suava. Peguei na direção da Terceira Perimetral e pisei fundo. Olhei pelo retrovisor, ninguém me seguia.

Longos minutos depois, estacionei ao lado do que um dia foi o Estádio Olímpico. Segurei o volante com as duas mãos, respirei fundo e deixei a cabeça cair entre os braços. Pensei em Janete, em tudo o que aconteceu, e o meu estômago entrou em colapso.

Não, eu não teria coragem de resolver aquela parada tão cedo.

Olhei o céu ao redor. Alguns foguetes já rasgavam a noite, num esforço inútil de cutucar as estrelas do ano novo. É isso. Eu era um foguete. Primeiro o barulho promissor da explosão, a partida veloz e, em seguida, puf. O nada. O silêncio. O vazio. Eu também tentava agarrar a minha vida naquele breu inatingível. O problema é que os meus saltos eram bem mais raros. E fracos.

Dei partida no motor e esfreguei o rosto com raiva.

É. Melhor comer um lombinho na casa do Simão.

* * *

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Amanhã, não perca o 17º capítulo de…