Capítulo 17
Gosto de pegar a Freeway ao amanhecer, toda vez que me obrigo a viajar ao litoral. Mais tranquilo. E quando falo que me obrigo a viajar é porque nunca fui muito fã de praia. Aquele negócio de virar um corpo à milanesa, coberto de areia por todos os lugares, inclusive os mais incômodos, nunca fez a minha cabeça. Talvez quando menino, apenas. Mas a infância não conta, na infância qualquer aventura nos seduz. A maturidade tira a graça até mesmo das aventuras.
É um contexto de chateações. O sol impiedoso da orla, as filas para comprar qualquer pão na esquina, os preços exploratórios no mínimo parafuso. Para completar, a água salgada endurece o cabelo. Não que eu seja exatamente um metrossexual. E também não chego a baitassexual - o oposto dos metro, na teoria criada por Simão e seus amigos gaudérios sobre o belo alternativo e que, no fundo, não passa do feio puro e simples. Eu apenas me cuido. Não sou casado. E tenho mais de trinta anos, o que me coloca no grupo de risco para possíveis solteirões eternos. Tenho medo de envelhecer sozinho. Preciso arranjar uma namorada urgente. O problema é me apaixonar, outra vez.
Aliás, o único lado bom da praia, mesmo, é o das paqueras. Os seres humanos e suas roupas minúsculas. Suas libertações dos seus próprios tabus.
Uma moto passou por mim como uma lufada de vento antes da tempestade. Em seguida, ao tentar ultrapassar um caminhão, um carro cresceu de repente no meu retrovisor e passou a dar sinal de luz, exigindo que eu saísse da frente. Sair para onde, se estou na pista da esquerda e o caminhão na do meio? Quer que me atire no canteiro?, perguntei, aos gritos, embora soubesse que ele jamais ouviria. Desacelerei e demorei mais ainda para fazer a ultrapassagem, de propósito. Não gosto de motorista me apertando na traseira. Nem no bom sentido. Por mim, esses pilotos de estrada têm mais é que se arrebentar. O problema é que levam sempre algum inocente junto.
O sujeito passou voando e me encarou. Jovem, tatuado, óculos escuros. O protótipo do idiota.
Pensei no capanga de Janete. É. Capanga, exatamente isso.
Poucos quilômetros depois, um caminhão jazia tombado no canteiro central, frente retorcida, a carga de enlatados espalhada pelo acostamento. Uma viatura da Polícia Federal sinalizava o local com suas luzes acesas. Ao lado, o policial preenchia papéis.
Larguei essa vida de preencher papéis.
Em Gravataí, pensei até em tomar um cafezinho no paradouro logo após a praça de pedágio, mas preferi seguir viagem. Quanto antes chegasse, melhor. Como o meu maverick super luxo ano 76 é um beberrão por natureza, não posso enfiar muito o pé, ou não sei se um tanque cheio aguenta até Tramandaí. Ele faz cinco quilômetros por litro. Uma média impensável para os carros de hoje. E olhe que aquele modelo já foi fabricado com adaptações para tentar fugir do fiasco de vendas que era no Brasil, devido ao alto consumo de combustível em plena crise do petróleo. Mas a minha relação, com ele, não era de consumo. Era paixão. Na maior parte do tempo, eu andava a pé ou de ônibus. E talvez não tivesse carro algum, hoje, se não tivesse a sorte de encontrar Simão vendendo aquela raridade.
Sempre gostei do maverick, desde garoto, nos raros passeios que fiz com meu tio. Foi quando me apaixonei pelo carro. O dele era verde e eu não lembro muitos detalhes, eu era menino. Mas por algum motivo eu o relacionava com o carro do Batman. Eu ainda tinha, no meu quarto, um painel de fotos da antiga Divisão 3, com seu modelo especial de Maverick, e do Endurance, nos anos 1970, frisons do automobilismo brasileiro da época. Guardei recortes que fotocopiei sobre o Campeonato Brasileiro de Turismo, onde o maior rival era o Opala, até a Ford retirar o patrocínio da competição e nascer a Stock Car, só para Opalas. José Carlos Pace, Bob Sharp, Paulão. Eu imagens dos grandes pilotos da época em seus Mavericks. Um quadro com a matéria "O Primeiro Passeio no Maverick", escrita pelo repórter Luís Secco, em São Bernardo do Campo, para o Jornal da Tarde de São Paulo em maio de 73. E, finalmente, eu, na gravura maior, bem no centro, a câmera estrategicamente colocada um pouco abaixo da linha da porta. Óculos escuros pequenos e quadrados, que o segredo de um sujeito de rosto caboclo como eu é não usar nada grande, principalmente os óculos. E o tigrão. Amarelo e preto, o seu exuberante friso lateral, aquele design de carro de super-herói. Dá para sentir o ronco do motor quatro cilindros só de olhar. Eu me sentia melhor, com meu Maverick. Muito melhor. E maior.
Olhei pelo retrovisor e tive a impressão de que uma caminhonete preta, talvez uma Range Rover, mantinha sempre a mesma distância do meu carro. O que era de estranhar visto que dez, a cada dez carros, me ultrapassavam sem muito esforço. Apenas um fusca eu não permiti. Quando tentou, acelerei, até que ele desistisse. Fusca e maverick foram parceiros da mesma geração. Só que o fusca nunca representou potência, força, virilidade, essas coisas. E eu não podia fazer isso com o meu tigrão, deixar que ele fosse ultrapassado por um fusca.
Alternei a velocidade enquanto observava a caminhonete. De fato, ela mantinha a mesma distância. Não se aproximava. Nem se afastava. Mudava de pista mais ou menos no mesmo instante que eu.
Decidi parar de repente num recuo da estrada e ver o que acontecia.
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Amanhã, não perca o 18º capítulo de…

