Oscar Bessi

Leão entre as dunas 18

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Capítulo 18

A Range Rover diminuiu tanto a velocidade que imaginei seu motorista atônito com a minha parada, sem saber o que fazer. Como mantinha certa distância, eu ainda não conseguia ver a placa do carro. Fiquei parado, pronto para qualquer reação, motor ligado. Não que eu imaginasse cinco ninjas saltando da caminhonete e avançando sobre o maverick em plena Freeway. Era o amanhecer do primeiro dia do ano e, mesmo que o congestionamento do início de feriadão já houvesse passado, ainda havia um movimento considerável de veículos. Porém, se estivessem mesmo me seguindo, era bom estar atento. Meu Magnum 357 estava no porta-luvas, achei melhor retirá-lo do velho coldre que ganhei do meu pai e deixá-lo sob a coxa direita. Ficava mais fácil sacá-lo nalguma emergência. Deixei a mão direita na coronha de madeira da arma e a esquerda no volante. Fiquei aguardando.

Um ônibus que vinha pela pista do meio cresceu no retrovisor. A Range Rover atravessou a estrada e tomou a pista da esquerda, diminuiu mais ainda a velocidade até que o ônibus emparelhasse. Não acreditei no que estava acontecendo. Num golpe de sorte, ou de azar meu, a caminhonete se escondia. Larguei o revólver e engatei a primeira. O ônibus passou a mais de cem por hora fazendo o meu carro balançar com o vento. Nem vi o carro preto ao seu lado. A placa, então, nem pensar.

Arranquei o maverick. Tive que esperar o fusca que eu havia ultrapassado quilômetros antes, para entrar na pista da direita. Pisei fundo. Meu carro, desacostumado a grandes emoções, tossiu. Apagou. Precisei fazer uma manobra radical e voltar ao acostamento. Liguei de volta. O motor fez um barulho estranho. Ônibus, Range Rover e fusca desapareceram no horizonte.

Saí do carro, caminhei, voltei, gritei palavrões, soquei o ar, quis chutar as rodas do maverick e desisti. A culpa não era dele. Eu podia ter um fusca, como a família que passou por mim. Mais eficiente. Ou um carro comum como os tantos que passavam naquele instante, no mínimo a cem por hora, fazendo meu topete dançar. Ou eu poderia ter vindo de ônibus.

Pensei em ligar para a concessionária da rodovia. Não, primeiro tentaria rodar mais uma vez.

- Descansou? - perguntei, fazendo um cafuné no alto do carro.

Entrei e guardei o revólver, que irresponsavelmente deixei exposto sobre o banco do motorista, de volta no porta-luvas. Coloquei as duas mãos no volante e respirei fundo, olhando o movimento da estrada no caminho do litoral norte. Pensei na Range Rover e seus vidros escuros. Era nítido que me seguia e perdi a chance de saber em nome de quem estava aquele carro. Girei a chave. O maverick não tossiu. Tudo pareceu normal outra vez, arranquei e segui viagem. Carro velho tem isso, crises de humor.

Fiquei de olho para ver se a caminhonete voltava a aparecer. Cruzei o segundo pedágio e nada. Parei na lanchonete, pedi um café em copo descartável e um sanduíche de salame italiano, sentei nas mesas externas e fiquei controlando o movimento na estrada e no estacionamento. Nem sinal.

Meia hora, três cafés e dois sanduíches depois, desisti da possibilidade de reencontrar a Range Rover preta. Concluí que era tudo bobagem da minha cabeça. Se estivesse me seguindo, ela já teria reaparecido. Segui viagem. Nove e vinte, o dia estava bom. O maverick também.

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Segunda-feira, não perca o capítulo 19 de…