Capítulo 19
Na minha infância, sempre que chegávamos àquela altura da estrada, o pai contava histórias sobre a Lagoa dos Barros, às margens da freeway. A primeira delas nascia de um crime real, narrado com entusiasmo investigativo pelas reportagens de jornais como Diário de Notícias, Folha da Tarde e Correio do Povo (o pai ainda tinha um recorte do Correio, encontrado entre os espólios de vovô, cuja manchete era “Heinz levou em seu auto cadáver de Maria Luiz para a Lagoa dos Barros”, onde eu achava muito engraçada a palavra “auto”). Foi em Porto Alegre, 1940. O casal Heinz Schimeling e Maria Luiza, moça da elite porto-alegrense, saíram de uma festa discutindo. Heinz matou a noiva. Desesperado, ele abasteceu o carro, passou numa construção que se erguia na Rua Coronel Bordini, subtraiu alguns tijolos e se tocou para Osório. Lá, amarrou os tijolos no pescoço e pernas da noiva e a jogou na Lagoa dos Barros. De volta à capital, atirou em si mesmo na tentativa de se inocentar, alegando que a noiva havia atirado nele e desaparecido. Não adiantou nada, foi considerado o primeiro suspeito e o corpo acabou sendo encontrado na lagoa. As investigações mostraram que os tijolos não eram comuns e apenas seriam encontrados naquela construção da Bordini. Depois de preso, Heinz alegou insanidade mental e foi internado num hospital psiquiátrico. Anos mais tarde, à noite, dois caminhoneiros viram uma mulher de branco às margens na rodovia. Estranharam e decidiram oferecer ajuda. Ou conseguir um programinha, vá saber. A mulher evaporou. E, desde então, a noiva da Lagoa dos Barros é umas das lendas vivas do Rio Grande do Sul.
Outras falavam sobre a cidade submersa, castigada aos moldes de Sodoma e Gomorra, o barco iluminado, o redemoinho mortal, a ligação subterrânea com o mar e por aí vai. “Crendices”, dizia o pai. “Já pescamos ali e nunca nos aconteceu nada. Nunca explicava quando, nem com quem. De qualquer forma, confesso que nunca vi um barco naquela lagoa. Nunca. Masnão passo ali todos os dias.
Tenho saudade do pai contando histórias no rumo da praia. E do seu fusca bege. Era um dos seus raros momentos de paciência conosco.
Cruzei pela lagoa e pelo parque eólico, abandonei a Freeway que ia em direção à Br 101 e ingressei na RS 030, que liga Osório a Tramandaí. Nunca sei exatamente onde aquilo vira Avenida Fernandes Bastos ou RS 786. Parei o carro para esticar as pernas, comprei um saco com rosquinhas de Maquiné e tomei mais uma generosa xícara de café preto.
Entrei em Tramandaí já passava das onze da manhã. Nem lembrava mais da Range Rover preta.
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Amanhã, não perca o capítulo 20 de…

