Oscar Bessi

Leão entre as dunas 20

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Capítulo 20

 

A capital das praias gaúchas sempre me impressionou pela sua efervescência. Ingressar na Avenida Fernandes Bastos, com seu canteiro central já permeado de areias brancas e gramíneas ralas, típicas do litoral, é como juntar as mãos e dar o primeiro peixinho num universo salgado. Criança, eu interpretava a curva da estrada após o Parque General Osório como molhar os pés na água, um "estamos quase lá". E, mais adiante, onde tudo passa a ter cara de uma cidade praiana e a pista convertia à esquerda, definitivamente chamada de avenida, era o mergulho definitivo e irreversível num mundo bem diferente do meu. Um ar de frescor e qualquer liberdade que eu não sabia definir e ia além das férias. Um mundo passageiro, onde o pai autorizava a comprar sorvetes no meio da tarde e refrigerantes em dia de semana.

À medida que se adentra em Tramandaí, o movimento de carros e pessoas se intensifica. Até se tornar quase insuportável e exigir paciência de metrópole já algumas quadras antes da ponte. A cidade não chega a ter cinquenta mil habitantes, mas cerca de um milhão de veranistas chegam à cidade com os meses de calor, atraídos pelas diversas opções de lazer além da praia e, claro, pela agitada vida noturna.

A cidade é antiga, embora sejam raros os seus pontos históricos a serem apreciados. Mal de quase todas as cidades brasileiras. Memória nos faz mal, não gostamos de preservá-la. Somos um país jovem, jovens não são dados a respeitar o que é velho. Talvez porque nossa própria história seja muito pouco nossa. O que era verdadeiramente nosso, o colonizador varreu do mapa.

Tramandaí foi fundada oficialmente em outubro de 1732, quando Manoel Gonçalves Ribeiro recebeu a primeira Sesmaria do Estado. O local, passagem de tropeiros que faziam o caminho entre Laguna e a Colônia do Sacramento, era chamado de Paragem das Conchas. A estrada da serra retirou o movimento do lugar e um povoado teve início às margens do Rio Tramandaí, com ranchinhos de palha erguidos por pequenos agricultores para as temporadas de pesca. Depois passaram a se fixar em suas margens devido à abundância do pescado. Registros históricos dão conta de que em 1906 já era procurada como balneário.

Hoje, o centro é um amontoado quase asfixiante de edifícios e comércios de todo tipo em disputa febril por espaço. O que parece não tirar a alegria dos visitantes. Eu não sou chegado a grandes aglomerações humanas. E odeio filas. Prefiro a serenidade respeitosa da solidão. Embora o anonimato das multidões, confesso, seja o meu melhor amigo.

Antes de chegar à ponte do Imbé - que há muito pouco tempo descobri se chamar Ponte Giuseppe Garibaldi -, ingressei com o maverick na pomposa Avenida da Igreja.

Finalmente eu estava perto do bairro nobre onde ficava a casa de Ladislau.

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Amanhã, não perca o capítulo 21 de…