Capítulo 21
Guiado pelo GPS, resolvi sair da Avenida da Igreja e dar uma volta pelas ruas adjacentes. Queria me situar melhor na cidade, afinal, há alguns anos que não colocava meus pés em Tramandaí ou qualquer outra praia. Fui em direção à margem do rio, onde a paisagem me fez reduzir a velocidade. Eu não tinha pressa e não sei passar por lugares bonitos sem degustá-los visualmente. E eu não me lembrava daquele gramado bem aparado, como uma imensa praça de passeio, ou do asfalto bem assentando lá nos dias em que passei por ali com meu pai. Parecia outra praia. A daqueles tempos me inspira saudades. A de hoje, quase me torna um poeta acidental.
Quase.
Percebi que eu tinha saudade até daquela areia branca a salpicar o asfalto. A inconveniente e onipresente areia da praia, trazida aos quilos por qualquer vento. Foi bom reencontrá-la.
Rodei pela avenida Beira Rio, desci em direção ao mar até o muro branco da Marinha e, em instantes, estava na Beira Mar. Rio, mar. Fiquei pensando se o asfalto ali também deixava de ser doce para se tornar salgado. Também não era a mesma rua dos meus dias de criança. Bem conservada, edifícios, casas de alto padrão. Realmente, tudo mudara nos últimos anos naquela praia. Talvez em todas. Dez anos, na atual conjuntura, significam muito mais do que dez anos no século passado.
Apenas as dunas seguiam naquela sua presença vigilante, de agora e sempre, como que delimitando a invasão humana.
Passei pelo monumento à Nossa Senhora dos Navegantes e segui na direção de Oasis Sul. Fiquei impressionado com a favelização do Terminal Turístico. O nome não tinha mais nada a ver com o lugar. Qualquer turista teria medo, num primeiro olhar, de se arriscar por ali. Pensei que seria um bom lugar para investigar o paradeiro do notebook.
Decidi retornar. À tarde iniciaria minhas buscas. Vim costurando, por dentro, para conhecer atalhos. Impressionante como nas esquinas de qualquer praia, onde as ruas não são asfaltadas, os cruzamentos parecem ondas seguidas de uma fenda. É como se houvesse colinas com calçamento. Os carros precisam andar em diagonal para não rasparem nas pedras. Com um maverick, então, a manobra dá bem mais trabalho.
Havia chovido e a água se acumulava nas ruas.
Cheguei ao endereço que Ana - ou Sara - me dera. Estacionei o maverick. Era um sobrado azul celeste, gracioso e delicado, o terreno circundado por uma cerca de grades brancas, que me pareceu tão charmosa quanto vulnerável. A vizinhança seguia o mesmo padrão. Eu jamais teria condições reais de alugar uma casa de veraneio daquelas, ainda que fosse por uma semana apenas.
Peguei as chaves no porta-luvas e enfiei a minha arma na cinta.
Percebi que o vizinho me observava, em pose marcial, parado no alpendre de sua casa toda de tijolo à vista. Cumprimentei-o com um breve aceno de cabeça. Não respondeu. Tinha um bigode grisalho, talvez metade do tamanho do bigode do Simão, e o cabelo cortado rente à cabeça. Apanhei a mala e o cobertor que deixei no banco de trás, fechei o carro e abri o portão. O sujeito lá, de olho em mim, em vez de deitar na rede ao seu lado. Garanto que ao ladrão de duas noites antes ele não deu essa atenção toda.
Descansei a mala no chão para abrir a porta. Não havia sinal de arrombamento nela. Já teriam arrumado? Enfiei as chaves nas duas fechaduras, girei, observei a porta branca da casa atrás de sinais de violação. Nada. Estranho, Ladislau e Ana não haviam comentado nada sobre terem providenciado o conserto da fechadura.
Ou não entraram pela porta da frente? Precisava conferir minhas anotações.
Voltei-me para apanhar a caderneta do Correio do Povo no bolso lateral da mala.
Foi quando a Range Rover preta passou em frente a casa.
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Amanhã, não perca o capítulo 22 de…

