Capítulo 22
A caminhonete tinhas vidros escuros e não consegui ver quem estava dentro. No instante em que parei para observá-la, ela também quase parou em frente à casa. Instintivamente me aproximei do pilar da área de entrada e saquei o Magnum. Eu esperava que a qualquer momento aquele vidro se abriria e um cano fumegante tentaria me encher de chumbo. Não. A Ranger acelerou de repente e se mandou.
Corri até o portão, precisava anotar a placa daquele carro. Dois segundos depois eu já estava na calçada. Só deu tempo de ver a caminhonete dobrar a esquina, ingressando na preferencial sem se importar com o fluxo do trânsito e quase bater de frente contra um sedan cinza, numa manobra que pareceu deixar a Ranger sobre duas rodas apenas. Buzinadas raivosas e palavrões do motorista do outro carro. E nada mais.
Corri até a esquina para ver se via algum sinal da caminhonete. Nada.
Pelo menos consegui ver as letras da placa. ABC. Fácil de gravar.
Fechei o delicado portão branco atrás de mim e resolvi dar a volta pelo pátio da casa, antes de entrar. Ela tinha dois acessos. Uma porta dos fundos dava para o pátio com piscina e também parecia intacta. Tentei relembrar o que o casal havia me dito sobre a entrada dos ladrões, não chegaram a especificar como foi. Apenas que Ladislau chegou com os filhos, no início da madrugada, e percebeu o portão aberto. Eles não falaram e eu não perguntei.
Também, quem mandou ficar olhando o decote da mulher do cara?
O vizinho continuava me cuidando. Tive vontade de fazer um gesto obsceno, mas a amizade aquele sujeito ainda poderia servir para alguma coisa.
Apanhei o celular e tentei ligar para o Ladislau. Queria perguntar por onde o ladrão, ou os ladrões, entraram para pegar o notebook. Enquanto tentava, percorri as janelas do térreo. Eram quatro, apenas. Nada, nenhuma violência contra as venezianas brancas de aço inox.
O número de Ladislau chamou até cair. Desisti. Eu também não atenderia telefone após um réveillon inteiro com uma morena daquela.
Voltei à mala na varanda da casa. O pátio praticamente não tinha divisória com o terreno do meu vizinho bisbilhoteiro, apenas um pequeno cercado branco, que dividia dois corredores de gramados semelhantes. Passar por ali era muito fácil, mas só permitira acesso ao andar de baixo. Já o muro do lado oposto era alto demais para ser escalado, mas a pitangueira com cerca de oito metros de altura, copa densa e arredondada, poderia muito bem servir de escada para este propósito. Dali sim, um pulo já permitiria ingressar na sacada do andar superior, onde provavelmente ficava o quarto do casal.
O ladrão precisava ser um sujeito leve e ágil, apenas. Talvez adolescente.
Bela pista. Há um enxame de adolescentes a praticar furtos e roubos, por aí, em troca de algumas pedras de crack.
Encontrar aquele notebook seria mais complicado de que parecia.
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Amanhã, não perca o capítulo 22 de…

