Oscar Bessi

Leão entre as dunas 23

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Capítulo 23

Eu me instalei no quarto do casal e aproveitei para observar o janelão que dava para a pequena sacada. Também não havia sinal de arrombamento. O que não queria dizer, necessariamente, que os ladrões não haviam entrado por ali, escalando a pitangueira o e muro. Numa casa como aquela, dificilmente alguém tranca as janelas do andar de cima, ainda mais na praia. E, se Ladislau e sua morena me contaram a verdade, ele e os filhos foram apenas jantar nalgum lugar não muito longe, o que dispensaria maiores preocupações.

Apertei o colchão da cama box e concluí que, pelo menos, eu dormiria bem. Muito bem.

Desci para preparar um café e pensar sobre por onde começar naquela mesma tarde. Enquanto a água esquentava na cafeteira elétrica, abri minhas anotações na caderneta do Correio do Povo. Eu precisava escrever para organizar melhor as minhas ideias. Saquei da caneta e fiquei desenhando estrelinhas enquanto aguardava o café ficar pronto. Se bons goles numa xícara com líquido preto e fumegante, não adiantava nem tentar engrenar algum rabiscos. Eu não pensava direito.

Minutos depois, com o gosto e o cheiro do café fresco me excitando os neurônios, anotei minhas hipóteses sobre o caso. Eu partia de duas premissas básicas. Na primeira, Ladislau e Ana - sim, eu me permitiria alguma intimidade com ela para dispensar o “Sara”, afinal, em breve saberia mais sobre o seu desempenho em vídeos íntimos picantes (pelo menos era o que eu esperava) - teriam me contado a verdade. Toda a verdade. Então, as hipóteses para o sumiço do notebook não eram tantas. Poderia ter sido coisa de ladrão ocasional, algum viciado em crack que escolhe uma casa qualquer para levar o que lhe aparecer na frente, correr para a boca-de-fumo e trocar por uma ou duas pedras. Ou até mesmo algum prestador de serviços que tivesse trabalhado ali, e que tenha visto algum bem ou passado a dica a outro, mesmo que Ladislau tenha me afirmado não ter feito qualquer obra ou reparo na casa nos dias de dezembro que esteve no litoral. O que permanecia sob suspeita de relação com os tantos furtos motivados pela droga que ocorrem todos os dias, em todos os bairros do país. Neste caso, eu teria que descobrir os pontos de venda em Tramandaí e partir para a operação “aperta até falar”. Sem contar com a Polícia, não seria algo muito fácil.

A segunda possibilidade era quase uma constatação. O casal estava me escondendo algo. Simão, sem conhecê-los, achava que nem era um casal e estavam me enganando de propósito. Talvez tivesse razão. Mas por que, neste caso, teriam pago um valor tão alto como adiantamento? E o nível de boicote das informações eu também não tinha como medir. Ocultar o conteúdo do notebook, por exemplo, me impedia de saber se alguém, quem sabe de suas relações profissionais, teria algum interesse nos arquivos nele armazenados.  Eles me deixaram no escuro.

A terceira e pior das hipóteses era a de que Ladislau e sua morena me mentiram do início ao fim. Nada era real. Talvez nem o arrmbanto, nem o notebbok, coisa nenhuma. E que estavam me colocando nalguma cilada. Aí, eu precisava descobrir o motivo. Vingança? De quem?

Lembrei de Janete e, em seguida, tratei de afastar aquele pensamento idiota. Não. Ela jamais faria uma coisa dessas.

Eu acho.

Valquíria e seu marido? Muito cedo.

Júlio?

Simão?

Renovei a xícara de café. Já começava a pensar demais.

Quem quer que fosse o mentor da arapuca, se a terceira hipótese se confirmasse, o certo é que teria a ver com a Range Rover preta que me seguiu na Freeway. E que depois surgiu ali, na frente da casa. Sabiam o endereço? Ou estavam atrás de mim o tempo todo e não percebi?

Por enquanto, eu era apenas perguntas. Nenhuma resposta.

* * *

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Amanhã, não perca o capítulo 24 de…