Capítulo 24
Depois da terceira xícara de café, o calor já me incomodando a alma, decidi sair para o pátio. Percebi que o gramado estava rente, bem aparado, e não consegui visualizar um homem feito Ladislau encarando um serviço braçal de jardinagem. O vizinho sisudo estava no mesmo lugar e permanecia de olho em mim.
- Buenas. - cumprimentei, me aproximando da cerca que dividia os dois pátios. Aquele veterano teria que me dar alguma pista.
- Uhum. - ele grunhiu, impávido, olhar desconfiado, o corpo retesado em pose quase marcial. Tinha jeito de militar.
- Vim me apresentar, serei seu vizinho por alguns dias. Prazer, Edgar Leão. Aluguei a casa do Ladislau.
- Sim.
Ele deixava claro que não queria conversa. Decidi investir num discurso reacionário. Se ele fosse militar, viria para o meu lado.
- Judiaria o que fizeram aqui, hein? Entrar na casa para levar um notebook. Coisa dessa marginália solta por aí. Tá brabo o negócio, mas ninguém faz nada. Saudade dos bons tempos em que a gente mandava bandido pra cova sem dar muita explicação.
Deu certo. A postura defensiva se desfez. Bem pouco, mas já foi um começo. Ele se aproximou lentamente da cerca.
- O senhor é policial?
- Fui, por alguns anos. Saí porque não há mais condições de trabalhar ao lado da lei neste país. Hoje sou professor. E escritor.
Ele ficou interessado.
- Dá aulas onde?
Inventei um cursinho pré-vestibular. Vai que minto sobre uma escola conhecida, onde ele tem seus contatos, e a farsa é descoberta antes de nascer.
- Acho que já ouvi falar. - ele resmungou.
- O senhor viu quem foi?
- Infelizmente, não. Se eu tivesse visto, ele não teria saído desta casa, pode acreditar. É que eu me recolho cedo. E muito cedo pulo da cama. - fez uma pausa, estufou o peito - Hábitos de caserna.
Rá! Eu sabia.
- O senhor é militar de qual arma?
- Exército brasileiro.
- General? - chutei a patente mais alta. Militares gostam de ser confundidos com superiores, nunca com subordinados. Eu sairia, no mínimo, com um empate.
- Capitão da reserva.
- Desculpe. Pela sua postura altiva, julguei que fosse general.
- Não tem problema. - ele sorriu.
Pronto, ganhei o sujeito.
- Meu pai também era militar.
- Exército?
Decidi não dizer que ele era brigadiano, feito o Simão. Meu pai me dizia que os membros das forças auxiliares nem sempre eram bem vistas pelos integrantes das Forças Armadas. “E nós é que lutamos na guerra de verdade, todo dia, enquanto eles ficam lá, brincando de acampamento”. Eu não me metia nessas rusgas institucionais.
- Aeronáutica. - menti, e já estava mentindo demais para tão pouco tempo, teria que anotar tudo aquilo - Ele serviu na Base, em Canoas.
- Correto. Vivo?
- Não.
- Sinto muito.
- Obrigado. E vou lhe dizer, meu pai partiu para o plano superior desgostoso com esses governos civis.
- Uma bandalheira! Tínhamos que voltar ao poder!
Eu ganhava mais ainda o sujeito. Tinha que anotar aquilo, dizer que era fã da Arena, do Geisel e do Delfim Neto nas próximas conversas. Ainda que Geisel e Delfim Neto nunca tenham sido bons amigos.
- O senhor conhece o jardineiro que trabalhar para o Seu Ladislau? Gostaria de chamá-lo, há partes da grama lá nos fundos que ficaram irregulares.
Militares gostam das coisas certinhas. Ele me explicou onde achar o sujeito, num aglomerado de casas populares na direção do Terminal Turístico. Um reduto de “pescadores e arruaceiros”.
- Mas ele é um bom cidadão. Muito obediente.
Ele quis dizer serviçal, pensei com meus botões. Anotei o endereço e disse que já iria até lá conversar com o homem. “Gosto de resolver as coisas na hora. Herdei esta mania do meu pai”.
Ele sorriu outra vez, satisfeito. Só faltou me prestar continência.
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Segunda, não perca o capítulo 25 de…

