Capítulo 25
Segui as orientações (o azimute, azimute!) do meu vizinho milico e não deu outra. Encontrei a casa do jardineiro sem dificuldades, numa rua de calçamento irregular e ainda com pouco movimento àquela hora da tarde. Uma construção pequena e simples, paredes de tijolos à vista, caiadas de cal. O pátio bem cuidado e uma cerca de madeira com a altura de um homem mediano. Estacionei, meio sem saber onde terminava rua e começava calçada, desci do maverick e bati palmas. Uma senhora idosa e magra, encurvada, sorriso calmo, me atendeu enquanto secava as mãos com um pano xadrez.
- O Seu Alfredo está?
- Só um pouquinho. - ela fez um gesto solícito com a mão e se apressou em retornar para dentro de casa, a chamar o marido. Nem perguntou quem eu era ou o que queria. Pessoas simples não são desconfiadas, pensei comigo. Nem as que, porventura, tenham por costume praticar furtos na casa dos seus clientes.
Adorei ouvir sua voz chamar “ô benhê”. Que inveja.
Um senhor igualmente baixo, magro e encurvado, a pele bronzeada apesar dos olhos claros, cabelo basto bem penteado e bigode fino, um pouco menos grisalho que os cabelos, surgiu na lateral da casa. Veio até o portão. Também sorria e não me perguntou quem eu era.
Físico e agilidade para escalar a pitangueira, o muro e saltar para a sacada do quarto de Ladislau, ele possuía. Jeito pra coisa é que, à primeira vista, não me parecia ter nem um pouco.
- Ôpa. - ele me saudou, sorridente, entendendo a mão.
- Buenas. Seu Alfredo?
- Na falta de outro. - riu. E já abriu o portão, sem perguntas. Não me fiz de rogado e entrei.
- O senhor corta grama na casa do Seu Ladislau, certo?
- Sim, sim. - ele respondeu e já me apontou duas cadeiras de palha numa sombra do pátio. Sentei. A mulher trouxe um chimarrão, parece até que estavam me esperando. Aceitei a cuia.
- Mas que tal! Parecem até que estavam me esperando.
Eu faço uns jeitos de Simão, quando quero conquistar a confiança de pessoas simples. Ele riu outra vez.
- É a nossa hora sagrada do mate. Vou lhe dizer, corto grama por aí nessas casas tudo, mas só pela manhã. Aí venho pra casa, almoço, trato dos meus bichos e, no meio da tarde, eu e a minha velha paramos pra prosear um pouco. Já trabalhei muito esses anos todos. Agora, temos é que aproveitar a vida um pouco.
Gostei do seu conceito de aproveitar a vida: se permitir um momento de sossego com sua mulher. Não, Seu Alfredo não poderia ser suspeito.
- O senhor precisa de algum serviço?
Sorvi a água até roncar a bomba e lhe devolvi a cuia.
- Estou com um problema. E, na verdade, quero saber se o senhor pode me ajudar.
- Olha, moço. Se for côsa de pátio, faço tudo o que se imagina. Só não lido com construção, elétrica, essas coisas.
- Quero uma informação. E pago bem.
Ele me encarou. Contei o que, conforme combinei com Ana e Ladislau, seria a minha história-cobertura. Eu era um escritor de Porto Alegre, estava para passar uns dias na casa do meu amigo Ladislau e pretendia encerrar um livro. Mas, infelizmente, alguém levou o notebook que estava na casa. Que era meu. E nele, só nele, havia um original que a editora me pediu para entregar em março, sem falta. Eu havia emprestado ao Ladislau para que ele lesse e me desse seu palpite sobre o livro. O Ladislau adora livros. E eu, agora, estava desesperado. Precisava recuperar o computador.
Ele pensou, olhando para o nada, enquanto sorvia o chimarrão.
- Por que não mandou por e-mail?
É. Ninguém é bobo mais neste mundo. Dei de ombros.
- Era um jantar entre amigos lá na casa dele. Falei sobre o livro, ele me pediu para ler, aí deixei o notebook lá, pois só uso para escrever mesmo. Ele trouxe para a praia e aconteceu isto.
- É. Um baita azar.
- Estou disposto a comprá-lo de volta. Não quero nem avisar a polícia.
- E porque o moço acha que eu posso saber onde está esse computador?
- O senhor esteve lá, na casa do Ladislau, aparando a grama. Pode ter visto algo. Ou saber quem pode ter entrado lá, ouvido falar, essas coisas.
Percebi que o meu anfitrião não estava mais a fim de ser gentil. Sentiu-se acusado. Não medi bem as palavras.
- Não vi nada.
Eu suspirei, fingi ter os olhos marejados (aprendi num curso de ator que fiz na adolescência, pensa em algo triste, muito triste, muito dolorido e fique imediatamente com pena de si mesmo).
- Eu não sei mais quem procurar. Preciso do meu livro, é a minha grande chance.
Ele pigarreou.
- Teve mais gente que entrou na casa.
- Sério? Quem mais?
- Ele, ué. E os filhos dele.
- Sim, eu sei. Mas tanto o rapaz quanto a menina estavam com o pai quando saíram pra jantar, na noite que o ladrão entrou.
- E o outro?
- Que outro?
- O mais velho. Ele te falou se estava junto?
Enquanto pegava a cuia de volta, fiquei relembrando tudo o que Ladislau me dissera. Não, ele em momento algum falou de um terceiro filho. O céu começou a nublar e Seu Alfredo comentou algo sobre o verão que não seria dos melhores para os turistas.
Simão estava certo. Aquela gente não estava me contando toda a verdade.
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Amanhã, não perca o capítulo 26 de…

