Oscar Bessi

Leão entre as dunas 26

* Perdeu o capítulo anterior? Clique aqui 

Capítulo 26

 

Tomei meu chimarrão com paciência enquanto ouvia as divagações do Seu Alfredo. Não, ele sentia muito, mas não tinha como me ajudar, repetiu umas quatro ou cinco vezes. Aquilo era encrenca de família, rusga de alguns anos entre Ladislau e o filho mais velho.

Opa!

- Rusga?

- É. Eles não se dão.

- Coisa grave?

- Não sei. Só que se um está lá na casa, o outro nem chega perto.

- Que idade tem o mais velho?

- Ah, bem mais de trinta, eu acho. Quase quarenta. Deve beirar a sua idade, moço.

Pensei em dizer que eu só tinha um pouco mais de trinta.

- Cá entre nós, o senhor acha que ele pode estar com o meu notebook?

O velho deu de ombros e pegou a cuia que eu lhe oferecia. Encheu. Olhou o horizonte e passou a mão no bigode, feito o Simão. Porque esses veteranos sábios sempre passam a mão no bigode quando inventam de filosofar?

- Gente rica é esquisita, sabe? São capazes de tudo. Até de umas bobagens sem sentido, só pra prejudicar alguém dentro da própria casa.

Levantei, para me despedir. Pedi desculpas pelo incômodo, agradeci o chimarrão e só então me lembrei de perguntar por Ana. Ou Sara.

- E a nova esposa de Ladislau? O que o senhor acha dela?

Ele me olhou sinceramente surpreso.

- Esposa?

Tá, Simão, tá. Estava certo sobre tudo.

- Pensei que ele era casado.

Seu Alfredo riu.

- Nada contra. Cada um cuida da sua vida e faz o que bem entende. Nem tenho preconceito, sabe? Não me prejudicando é a conta. Mas até onde a gente sabe, o Seu Ladislau não gosta da fruta.

O velho disse isso e caiu na gargalhada, ficando mais encurvado do que já era, até tossir e se engasgar de modo assustador. Ele mesmo se deu uns tapas nas costas e voltou ao normal. Desta vez me despedi mesmo, ele levantou, chamou a mulher, ela veio e me acenou, simpática, da porta da casa, o mesmo pano xadrez entre as mãos. Eu precisava anotar tudo aquilo na minha caderneta quando entrasse no carro.

Fui abrir o portão e um adolescente muito mal encarado entrou quase que ao mesmo tempo. Tinha os cabelos sujos e os olhos vermelhos, e não precisei de duas olhadas para entender que estava chapado. De crack.

- Meu filho. - disse Seu Alfredo, sem perder o sorriso, como se não percebesse o estado do guri - Vez em quando me ajuda na lida, pra ganhar uns trocados. Até as gramas do Seu Ladislau ele já cortou comigo.

O rapaz se enfiou dentro da casa quase derrubando a mãe que estava na porta. Observei o seu braço e vi a tatuagem de uma espada. Acima dela, cinco pontos, o que me pareceu ser uma constelação do Cruzeiro do Sul.

Mais um suspeito para anotar na minha caderneta, pensei.

* * *

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o capítulo 27 de…