Oscar Bessi

Leão entre as dunas 27

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Capítulo 27


Entrei no maverick, dei partida, acenei para o casal de veteranos e percebi que o guri me espiada pela janela. Fiz a volta, rodei por duas quadras, estacionei o carro e desci outra vez. Voltei até encontrar um bar onde eu poderia observar, numa distância segura, o portão do Seu Alfredo.

Pedi uma água sem gás e anotei o que queria na caderneta. A suspeita de homossexualidade do Ladislau, o filho mais velho que não se dava com ele, o filho chapado do jardineiro que já trabalhara na casa. Fiz um desenho para reproduzir as tatuagens. Mais tarde ligaria para Júlio, que depois de tanto tempo eu não lembrava mais o que elas significavam. Mas sabia que aqueles desenhos constavam num manual sobre tatuagens comuns entre criminosos.

Meu celular tocou. Número não identificado. Não gosto de atender ligações assim, mas atendi.

- Leão, boa tarde.

- Oi, gatinho fofucho.

Reconheci a voz. E o deboche.

- Não quis entrar ontem à noite?

Eu não responderia para Janete. Não depois de tudo o que aconteceu.

- Chamei a Brigada, viu?

Vi. E tive vontade de dizer que não adiantou nada, nas duas noites consegui dar um nó nas patrulhas.

- E vou continuar chamando se insistir em parar esse carro ridículo na esquina da minha casa! Entendeu?

Eu não respondi. Apenas ouvia a sua voz irritada.

- Não vai falar nada, seu cretino?

Não.

Ela desligou. Eu respirei fundo. E decidi pedir uma cerveja, depois daquela ligação. Precisava me acalmar. Um mulato sorridente me trouxe a cerveja e eu agradeci.

- Fiscal da prefeitura? - ele perguntou, apontando com o nariz a minha caderneta.

- Jornalista. - menti. Minha vida de detetives era empilhar mentiras até me confundir de vez e esquecer quem eu era. O que não seria de todo mal.

Mostrei a capa da caderneta. Primeira edição do Correio do Povo, expliquei. Ele sorriu.

- Gosto do Correio. A gente lê com mais vontade, não tem enrolação.

Ele ficou falando mal de outros jornais e eu virei o primeiro copo de cerveja. Bem gelada. Como eu era o único freguês, ele não me largou de mão. Terminei aquela garrafa e já pensava em pedir outra quanto o filho de Alfredo apareceu no portão outra vez. E saiu, apressado.

- Mais uma, chefia?

Respondi que não e paguei a conta sem esperar o troco. Precisava seguir o garoto. Algo me dizia que ele me levaria à primeira boca-de-fumo de Tramandaí.

Dito e feito.



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E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o capítulo 28 de…